Croácia, Croatie, Hrvatska: Marin Cilic inscreve o nome e o país na história final da Taça Davis

Marin Cilic2
Fotografia: Corinne Dubreuil

Dar a volta à final da Taça Davis revelou-se missão impossível para a França, que com os Alpes pela frente ainda deu o primeiro passo mas se revelou demasiado fraca para uma Croácia na máxima força, com condições e qualidade para reclamar seu o troféu pela segunda vez na história. É um virar de página depois de 118 anos de história.

Por Gaspar Ribeiro Lança, em Lille

Favoritos desde os primeiros instantes, os croatas ganharam ainda mais força com as prestações arrasadoras do primeiro dia. Só um milagre podia valer à equipa da casa uma reviravolta histórica — a única reviravolta de 0-2 para 3-2 numa final da Taça Davis aconteceu em 1939… — e para isso era preciso um “abanão” do lendário Yannick Noah, que se despede do cargo de capitão com um tiro nos pés que não sendo a única causa esteve na base dos problemas sofridos pela França ao longo do fim de semana.

O ego do líder gaulês deixou de fora da equipa jogadores como Gael Monfils e Gilles Simon (dois dos três melhores franceses da atualidade no ranking ATP — o outro, Richard Gasquet, estaria convocado mas foi impedido de participar na final devido a uma lesão) — e uma decisão arriscada colocou em Jeremy Chardy uma responsabilidade para a qual não estava pronto. Lucas Pouille parecia desde o início um jogador mais capaz de oferecer resistência aos ainda assim bastante favoritos Borna CoricMarin Cilic e foi isso que acabou por mostrar este domingo, num embate em que chegou a oferecer uma réstia de esperança aos 25.000 espetadores que esgotaram o Stade Pierre-Mauroy por uma última vez.

Se Pierre-Hughes Herbert e Nicolas Mahut deram o primeiro passo de uma missão praticamente impossível ao vencerem o par de sábado, era no primeiro singular que começava a verdadeira adversidade para o gaulês — mesmo se estando a viver um mau ano no circuito ATP Lucas Pouille venceu os três encontros que disputou na Taça Davis e há um ano até foi o autor do ponto decisivo na final, neste mesmo palco.

Com o peso de todo um país nas costas e uma pequena “traição” do capitão entalada na garganta — poderão nunca o vir a admitir, mas os franceses escolheram a terra batida por ser a pior superfície dos croatas e não por nela se sentirem mais confortáveis (talvez Gilles Simon assim se sentisse, mas se nem ele faz parte das opções…) –, Pouille entrou em court impedido de dar qualquer passo em falso.

O mais pequeno erro poderia custar-lhe o encontro e mesmo uma exibição perfeita não seria sinónimo de sucesso frente àquele que é um dos melhores jogadores da atualidade. Com a esquerda a tardar em aparecer — os primeiros sinais de qualidade só surgiram ao oitavo jogo e até por dois amorties — as suas hipóteses ainda mais diminuíram. Ainda assim, segurou todos os seus jogos de serviço até ao tie-break, onde acabou por ser traído por uma quebra de serviço que Marin Cilic não desperdiçou.

Com o embalo de uma equilibrada e entusiasmante primeira partida (a melhor de todos os encontros de singulares disputados este fim de semana…) o número 7 mundial aventurou-se noutros voos, passando do papel à prática a superioridade que trazia para o encontro. Um break em cada um dos parciais seguintes (no segundo, ao 3-2; no terceiro, ao 2-2) foi diferença suficiente para o campeã do US Open 2014 preparar a página de uma vitória histórica que assinou com os parciais de 7-6(3), 6-3 e 6-3.

Se em 2016 viveu um derradeiro dia negro ao desperdiçar uma vantagem de dois sets a zero frente a Juan Martin del Potro (com Federico Delbonis a derrotar Ivo Karlovic no derradeiro encontro para confirmar a reviravolta de uma final jogada em solo croata), em 2018 Marin Cilic dá ao ténis croata um dos momentos mais dourados de toda a sua história.

O país entra para os registos da Taça Davis como o último a vencer o atual formato da competição — mesmo se as muitas mudanças não assustam David Haggerty & companhia, que afirmam não existirem quaisquer razões para se mudar o nome ao torneio. Em 2019, a Taça Davis continuará mas com um novo modelo no Grupo Mundial. 18 equipas vão reunir-se em Madrid para lutar pelo título numa só semana e um outro capítulo começará. Para já, é tempo de eternizar este.

A Hrvatska, ou Croácia, é a nova detentora da famosa saladeira.


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