Maia já coroou um futuro número um mundial e até um presidente — falta um campeão português

Pelo segundo ano consecutivo, o calendário do circuito ATP tem a Maia como última paragem. E se esta é apenas a segunda edição do torneio Challenger organizado pela Federação Portuguesa de Ténis, a verdade é que a cidade nortenha já tem um historial recheado — e muito interessante — de campeões. Mas falta uma festa em bom português.

Na Maia, tudo começou em 1991, com a Oporto Cup a ser transferida do Clube de Ténis do Porto (onde se realizou em 1987, 1988, 1989 e 1990) para o Complexo de Ténis da Maia e a ser semi-rebatizada: Oporto Cup/Maia Open.

O torneio mudou de morada, mas não de circuito e integrou o calendário da ATP Challenger Series. Com 100 mil dólares em prémios monetários, teve como campeão o belga Bart Wuyts, então número 95 do mundo, que na final se impôs contra o canadiano Martin Wostenholme com os parciais de 6-3 e 7-5.

Organizado por Jaime Vaz de Sousa, o Oporto Cup/Maia Open manteve-se no calendário e em 1992 foi ganho por Jordi Arrese, número 39 ATP, que na final bateu o sueco Lars Jonsson por 2-6, 6-1 e 6-0. Em 1993 aumentou os prémios monetários para 125 mil dólares e sorriu ao marroquino Younes El Aynaoui, que na primeira ronda eliminou o primeiro cabeça de série, Francisco “Pato” Clavet, e exatamente 10 anos depois chegaria ao melhor ranking da carreira, o 14.º lugar (pelo meio conquistou cinco torneios ATP em 16 finais disputadas).

Na edição de 1994 o austríaco Gilbert Schaller (65.º) também conseguiu surpreender o primeiro cabeça de série, Javier Sanchez, mas nas meias-finais (já depois de ter deixado pelo caminho o futuro número um mundial, Marcelo Rios), e só saiu da Maia com o título.

As quatro edições de sucesso foram bem recebidas e resultaram numa subida de patamar: nos anos de 1995 e 1996, o torneio foi elevado à World Series (equivalente à atual categoria ATP 250) e fez companhia ao antigo Estoril Open no calendário da “primeira divisão” do circuito mundial masculino.

O primeiro campeão? Nada mais, nada menos do que o número 14 mundial Alberto Berasategui, espanhol que meses antes chegou ao 7.º lugar do ranking e que que dois meses depois de ter perdido para Nuno Marques na estreia no Estoril Open rumou ao Norte do país e só parou com o título nas mãos: derrotou Stefano Pescosolido (171.º), o ex-top 10 Emilio Sanchez (então 70.º), Filip Dewulf (143.º), Francisco Clavet (33.º) e Carlos Costa (65.º, ex-top 10 e campeão do Estoril Open em 1992 e 1994) na grande final, por 3-6, 6-3 e 6-4.

O título na Maia foi o nono de 14 que Alberto Berasategui conquistou no circuito ATP entre as 23 finais que disputou. O último? Curiosamente anos mais tarde em Portugal, mas no Estoril Open de 1998.

Em 1996 o campeão em título regressou, mas foi surpreendido logo à primeira pelo modesto Mikael Tillstrom. Como ele, também o compatriota Carlos Costa, segundo cabeça de série, caiu logo à primeira (para Christian Ruud, pai de Casper Ruud). O grande favorito, Carlos Moya (que era o número 20 ATP e nos dois anos seguintes venceu dois Grand Slams), ainda conseguiu desenvencilhar-se do português Bernardo Mota na segunda ronda (6-1, 3-6 e 7-5), mas perdeu nas meias-finais para o compatriota Felix Mantilla, que no dia seguinte colocou a cereja no topo do bolo ao dar a volta a Hernan Gumy, com 6-7(5), 6-4 e 6-3, para levar o troféu de campeão para casa.

E foi no ano de 1996, em pleno solo maiato, que uma dupla 100% portuguesa conquistou, pela primeira vez, um título de pares no circuito ATP: Bernardo Mota e Emanuel Couto recuperaram da desvantagem de um set para vencerem Joshua Eagle e Andrew Florent, por 4-6, 6-4 e 6-4.

Só que a passagem do torneio pelo calendário foi sol de pouca dura e em 1997 já não ocupou uma das semanas da World Series — nem tampouco da ATP Challenger Series. Mas não demorou até ao ténis ao mais alto nível regressar à cidade da Maia, pelas mãos de outro organizador.

Em 1998, João Lagos reinventou o Maia Open e a primeira edição deste novo Challenger coroou um velho conhecido da terra batida maiata: o mesmo Younes El Aynaoui que cinco anos antes já tinha vencido naquele palco. A chave da edição de 1999 estava “escondida” nesse mesmo quadro: vice-campeão do torneio de juniores de Roland-Garros, o muito promissor Juan Carlos Ferrero recebeu um wild card e um ano depois voltou, já com outro estatuto, e sagrou-se campeão.

Número 113 do mundo, o espanhol derrotou Charles Auffray, o português Bernardo Mota por 7-5 e 6-0, Rodolphe Gilbert, o chileno Nicolas Massu (que na segunda ronda travara João Cunha e Silva) e, na final, o argentino Mariano Hood, por 6-3, 5-7 e 6-3.

A conquista na prova nortenha foi a segunda e última do “Mosquito” em torneios do ATP Challenger Tour: três meses depois, começou a jogar torneios ATP a tempo inteiro e nunca mais parou. Ainda nesse ano conquistou o ATP de Maiorca, em 2001 venceu no Estoril, em 2002 estreou-se em finais do Grand Slam em Roland-Garros e em 2003 nos títulos, ao vencer em Paris. Nessa época também chegou à final do US Open e foi premiado com a chegada ao primeiro lugar do ranking mundial ATP — um brevíssimo resumo que não faz justiça ao currículo daquele que foi um dos melhores tenistas do país vizinho.

De regresso ao Maia Open, ao futuro número um mundial seguiu-se… O futuro presidente: a terceira edição do Challenger organizado por João Lagos, em 2000, sorriu a Andrea Gaudenzi, então número 73 do ranking e atual presidente da ATP.

Segundo cabeça de série, o italiano despedaçou os corações da casa ao derrotar o wild card Nuno Marques na primeira ronda, por 6-4 e 6-4, e depois bateu Marcelo Charpentier, Stephane Huet e Julien Boutter para chegar à final, onde conquistou o título com uma vitória por 3-6, 7-5 e 6-1 sobre Juan Ignacio Chela.

Antes de sair do calendário, o Challenger Maia Open ainda coroou mais dois jogadores que acabariam por chegar ao top 30: em 2001, o finlandês Jarkko Nieminen (na altura 123.º, mas que em 2006 chegaria a ser 13.º) derrotou Feliciano López, por 5-7, 6-3 e 6-4; e em 2002 o campeão foi Victor Hanescu, que como número 212 ATP derrotou Oscar Hernandez na final, com os parciais de 6-3, 3-6 e 6-3. Sete anos depois, o romeno atingiu o melhor ranking da carreira: foi 26.º.

Os 17 anos de hiatus terminaram com o regresso do Maia Open ao circuito Challenger. Organizado pela Federação Portuguesa de Ténis com o apoio da Câmara Municipal da Maia, o “novo” torneio consagrou Jozef Kovalik como campeão de 2019.

Revisto o passado, chega agora a hora de olhar para o futuro e sonhar com uma conquista portuguesa — a festa que falta à cidade da Maia, que tanta tradição tem desde a organização de torneios à formação de tenistas e treinadores.

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Notícia atualizada e corrigida às 11h11 de 1 de dezembro.


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