Diário de uma quarentena na Austrália: a viagem e os primeiros dias em Melbourne (por Pedro Felner)

A aventura por terras australianas começou com 14 horas de voo de Doha para Melbourne, num avião fretado pela organização do Australian Open. Para minimizar riscos, tínhamos um “quarteirão” do enorme Airbus 350 para cada um de nós. Imagine-se um avião para 400 passageiros com 58 almas lá dentro. Eram 7 horas de manhã em Doha quando embarcámos. Ensonados, porque muitos de nós simplesmente ainda não tinham dormido nessa noite. Era o meu caso. Para antecipar a adaptação ao jet lag, importava aguentar sem dormir pelo menos as 5 primeiras horas de voo. Tarefa impossível. Caí a dormir nos primeiros 5 minutos acordando 4 ou 5 horas depois para comer a melhor refeição que alguma vez me foi servida a bordo: sopa tailandesa — não aconselhável aos mais sensíveis aos sabores picantes — e borrego com arroz de açafrão. Tudo servido em pratos, talheres e copos que ficariam bem em qualquer restaurante com estrelas Michelin. As restantes horas de voo foram preenchidas com muita leitura, alguns rascunhos no meu livro de projetos, conversas de ocasião com as hospedeiras de bordo e algumas horas a navegar na internet.

Um voo tão longo justificava puxar do cartão de crédito para comprar o acesso à internet a bordo. Dei comigo entusiasmado a fazer vídeo-chamadas para casa, a mostrar o avião à minha filha e a apresentá-la às hospedeiras de bordo.

Aterrámos por volta das 5h da manhã em Melbourne. Cansados e ensonados. Esperava-nos uma jornada logística complicada. O avião aterrou longe dos normais terminais de desembarque de passageiros. Saímos do avião a pé, directamente para um hangar onde estava uma extensa equipa à nossa espera. As nossas bagagens foram desinfectadas e colocadas no hangar à espera que as fossemos recolher. Depois passávamos por um circuito previamente montado: entrega de vistos, apresentar passaporte, medir temperatura, recolher contrato do Australian Open, com todos os detalhes da nossa estadia, regras de quarentena, etc. Terminado tudo isto, fomos encaminhados para o autocarro que nos transportou para o hotel, sempre escoltados por carros da polícia. 

A nossa chegada a Melbourne foi o primeiro indicador de como os australianos temiam e levavam a sério a nossa chegada. Era já um aviso para o que aí vinha. É bom lembrar que em Melbourne não existe um único caso de covid-19 e que este sucesso no controlo da pandemia é consequência de meses de quarentena obrigatória. 

Tive a sorte de ter um quarto com grandes janelas para uma das avenidas principais de Melbourne, para o parque Albert Hall e para o rio. Mais tarde viria a descobrir o azar: nenhuma abria!

Ao chegar ao quarto, algumas boas supresas: uma caixa enviada pela Tennis Australia carregada de frutos secos, chocolates, bolachas e outros guloseimas perigosas em tempo de quarentena.

Depois de uma longa viagem e com o sono “trocado”, acabei por desistir da tentativa de controlar os ciclos de sono. Optei simplesmente por dormir quando tinha sono, esperar que me viessem fazer o teste covid e por notícias da organização quanto aos planos para o dia seguinte. Acabaram por não me fazer o teste e fiquei na expectativa de receber notícias quanto aos treinos do dia seguinte. 

Para a noite estava marcada uma reunião no Zoom entre todos os participantes no AO e Craig Tiley, o CEO da Tennis Australia. O grande tema da reunião era a situação, já pública, dos jogadores que estavam em quarentena por terem viajado em voos onde foram detectados testes covid positivos. Não podia deixar de pensar que, entretanto, todos os passageiros do nosso voo estavam a ser testados e que poderíamos ficar na mesma situação caso fosse detectado algum caso positivo. Entretanto os treinos foram cancelados até que todos os passageiros dos diferentes voos fossem testados e saíssem os resultados.

Pois bem, no dia seguinte os meus maiores receios foram confirmados. Um dos passageiros do nosso voo testou positivo e, como tal, espera-nos a nós também uma longa quarentena no quarto de hotel. De repente todos os planos mudaram. Temos pela frente um desafio novo para nós: preparar um torneio do Grand Slam fechados num quarto de hotel durante 14 dias!

Continua brevemente…


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