Marionetas. Na opinião de Marc Giner, tenista espanhol de vinte e três anos que vai disputando uma série de torneios no continente africano, mais precisamente em Marrocos, escreveu uma ‘carta’ na qual demonstra a sua insatisfação com as condições encontradas e, sobretudo, pelo facto da Federação Internacional de Ténis (ITF) nada fazer quanto ao estado em que diversos clubes organizam torneios do circuito profissional.
Para o espanhol, que ontem derrotou Pedro Sousa rumo à final do Future de Safi, tudo tem sido uma verdadeira (e surpreendentemente negativa) aventura: “Estou em Marrocos a jogar uma série de Futures, três semanas consecutivas de competição. Chegámos ao hotel oficial e à entrada vimos que havia uma humidade indencente, um frio de loucos e que a habitação dupla custava 62 euros. O menu [de refeição] custa 10 euros e a qualidade da comida é péssima. Não percebo como é que a ITF aprova estas coisas.”
Como o próprio explica, ninguém o obriga a pagar os 62 euros pela habitação ou mesmo pela refeição, “mas estamos no meio do nada e se queremos ir a outro sítio qualquer temos pelo menos uma hora de viagem pela frente.” Para Giner, que figura no 313º posto do ranking mundial e procura fazer uma carreira sólida no circuito profissional, isto estava, no entanto, longe de ser o pior. Se no primeiro torneio, onde foi derrotado nas rondas inaugurais de singulares e pares, ainda conseguiu recuperar algum dinheiro ao encordoar raquetes de outros atletas enquanto passava os restantes dias a treinar, a partir daí…
“Na segunda semana choveu na segunda e na terça. Na quinta-feira estava nos oitavos-de-final de singulares, depois nos quartos e ainda nas meias-finais de pares. Joguei três encontros num dia por decisão do árbitro visto que havia jogadores que depois iam jogar o qualifying do próximo torneio e por isso tinham de ir embora.”
O que Marc Giner continua a contar é uma verdadeira aventura e reflete as condições que (ainda) se vão vivendo em muitos dos torneios de menor dimensão do circuito profissional. “Incrível foi, também, o que se passou na sexta-feira: joguei quartos-de-final e meias-finais em singulares e final em pares; às 10h estava a jogar os quartos-de-final, que ganhei por 6-4 no terceiro set já com caîmbras como reflexo de um jogo duríssimo. Quando terminei tinha as costas em ‘coma’.”
A mensagem de Giner é longa e nela o espanhol conta ainda que apenas teve uma hora e meia (o tempo mínimo imposto pela ITF) para descansar e se preparar para o encontro frente a Lamine Ouahab, que tinha ganho por desistência. Ao seu pedido por mais tempo, recebeu uma resposta negativa por parte da ITF mas, ainda assim, venceu o primeiro set por 7-6. Já com vómitos e mais caîmbras, acabou por sofrer uma recuperação e, sem descanso algum, regressou ao campo para disputar a final (que perdeu) em pares. “Joguei seis jogos em pouco mais de trinta e cinco horas! Não entendo como é que a ITF admite isto. Parecemos marionetas, têm de pensar mais nos jogadores.”
A TV por trás da ‘pressa’ e um final sem… Recompensa
Por trás da ‘pressa’ marroquina e da Federação Internacional de Ténis estavam os direitos televisivos, como o próprio Marc Giner explica: “Seis encontros em dois dias é indencente quando há tempo suficiente para não ter que jogar dois jogos em singulares. Quiseram terminar [o torneio] no sábado porque o encontro era transmitivo na televisão, ora, eu sei que se pode terminar torneios no domingo. Mas não, não foi feito nenhum tipo de esforço por parte de ninguém. Queimaram os jogadores e puseram em risco a nossa saúde.”
Se pensa que a aventura de Marc Giner chegava ao fim… Desengane-se. Relata o jovem de vinte e três anos que, “terminada a final de pares, fomos ter com o árbitro que estava no terreno para recolher o pagamento e foi-nos dito que não o iriam fazer já porque o diretor do torneio se tinha ido embora e não tinham o dinheiro. Não queríamos acreditar! Tínhamos de pagar o hotel, que não aceitava cartões, e ele estava muito tranquilo… Até que começou a gritar connosco.”
“Definitivamente não somos jogadores, somos marionetas.”