Laura Robson em exclusivo ao Raquetc: “Acredito que há sempre espaço para os torneios 250”

Laura Robson foi uma das tenistas britânicas mais marcantes da sua geração, sobretudo depois da conquista da medalha de prata em pares mistos nos Jogos Olímpicos de Londres em 2016 ao lado do amigo Andy Murray. As lesões tiraram-na dos courts demasiado cedo – ainda só tem 31 anos e já abandonou a carreira em 2022 -, mas também permitiram ver nascer uma comentadora de sucesso.

É nesse papel que está na Austrália para acompanhar o primeiro torneio do Grand Slam da temporada ao serviço do Eurosport, cadeia televisiva que promoveu entrevistas com jornalistas de vários países. Em Portugal, Robson falou em exclusivo com o Raquetc e o nosso país foi o ponto de partida da conversa.

Como português, gostaria de falar em primeiro lugar sobre o nosso ténis. Neste Australian Open, tivemos uma [Francisca Jorge] mulher a jogar a prova, o que não tem acontecido. Ela perdeu na primeira ronda do qualifying, mas qual a importância de ter uma jogadora a atuar nos maiores palcos para o crescimento do ténis feminino em Portugal?

Esse assunto surge com frequência quando se fala do ténis britânico. Não tanto agora que temos jogadoras como a Emma Raducanu, mas no passado sempre houve a esperança de ter vencedoras britânicas num Grand Slam. Acho difícil conseguir essas jogadoras de alto nível sem investir na base e Portugal faz um ótimo trabalho nisso. Mas sim, essa é a questão. É como se perguntássemos: o que estão os italianos a fazer para todos poderem copiar? Geralmente, a resposta é garantir que o acesso aos clubes seja simples, que haja torneios para que elas possam jogar em casa. E aí as pessoas continuam a jogar, porque tenho a certeza que muitas crianças jogam e nem sempre continuam. Pelo menos é assim em Inglaterra. É complicado e também não sei qual o apoio da federação em Portugal e o financiamento ajuda. É uma pergunta difícil.

Mas teoricamente falando, jogar em torneios como o Australian Open ajuda as mais jovens a tentarem replicar o seu sucesso?

Ajuda sempre, sobretudo por ser alguém do mesmo país. Mas também acho que a inspiração pode vir de qualquer pessoa. Eu sempre me inspirei em jogadoras em quem eu achava que podia jogar de forma parecida. Se és apaixonado pelo jogo e queres jogar, vais encontrar alguém para te inspirar, mesmo que não seja do mesmo país. Mas claro que é sempre útil ter alguém próximo como referência.

Ela tem sido a melhor do país desde a adolescência porque as duas melhores jogadoras de sempre [Michelle Larcher de Brito e Maria João Koehler] retiraram-se bastante cedo. O que é o oposto nos homens, onde o João Sousa esteve a alto nível imensos anos. Quão importante é ter exemplos como o do João para um país pequeno como Portugal? A Francisca ficou sem essas referências femininas muito cedo.

É bom ter competição. É bom ter rivalidades quando se é mais jovem. Eu joguei com pessoas em sub-16 e no profissional e havia sempre a luta pelo posto de número um britânico. É útil ter alguém para te incentivar. Tenho a certeza que se for a única é mais difícil. Quantos mais, melhor. Quantos mais jogadores forem bons em juvenis e, quem sabe, eventualmente se tornarem bons no profissional, mais fácil será.

E sobre o Nuno Borges, o nosso número um nos últimos anos, o que conheces dele?

Adoro a forma como compete, é uma das suas maiores qualidades. Deve ser alguém muito dedicado porque para se manter nesse nível de ranking consistentemente, como ele tem feito, é preciso muito trabalho e acredito que esteja sempre na expetativa para dar o passo seguinte. Por vezes é uma batalha mental quando isso não acontece rapidamente ou quando se joga o qualifying ou se está a perder regularmente na segunda ou terceira ronda. Para ele ser tão consistente mentalmente a cada semana é preciso muito e essa é provavelmente uma das suas melhores qualidades. Ele movimenta-se bem, tem uma grande direita e muitas qualidades no seu jogo. Há uns anos [2024] lembro-me que teve um grande Australian Open, com vitórias muito boas. Desejo que se repita mais frequentemente.

Falando um pouco mais geral agora, o ténis feminino atravessa uma fase onde há várias potenciais vencedoras numa prova do Grand Slam. Só que muitos dizem que faltam estrelas, talvez em comparação com o período em que a Laura jogava, com Serena, Sharapova e outras. Essa é uma crítica justa? Como vês o estado do ténis feminino atualmente?

Sinto que há mais profundidade do que nunca. Penso que uma jogadora do top 20 é, provavelmente, melhor do que antigamente. Mas não dá para comparar com a Serena, Venus ou a Maria. Elas transcenderam o ténis desde muito cedo. E além disso a Serena é a melhor de sempre. Por isso, se esse é o standard, então todas vão sofrer. Acho que também há estrelas hoje em dia, como a Coco [Gauff], a Aryna [Sabalenka] e jogadoras de grandes mercados também. Por isso acho que o ténis feminino está a crescer. Ainda agora o WTA anunciou um grande patrocínio que vai dar mais dinheiro e ajudar a crescer ainda mais. É sempre complicado comparar gerações e é injusto. As bolas mudaram, os courts mudaram e o jogo no geral mudou imenso nos últimos anos. Acho que esta geração está a dar boa conta do recado.

Considerando isso, qual o papel da recente batalha dos sexos? É algo interessante? O ténis ganha ou perde mais com iniciativas desse género?

Para ser honesta, não vi. Não tive qualquer interesse em ver. Sinto que a Aryna [Sabalenka] é uma grande campeã e tem tanto sucesso que não precisa disso, mas ela quis. Foi uma decisão dela e parece que se divertiu. No geral, não vejo qualquer impacto desse evento.

Última questão. Para muitos países, um ATP 250 é somente mais um torneio, mas para Portugal significa um único ATP e a semana mais importante do ano em termos de visibilidade para a modalidade. Tem havido algumas conversas sobre o calendário e sobre a eventualidade dos torneios mais pequenos irem desaparecendo. É um assunto com pano para mangas, mas até para alguém que já foi diretora de um torneio 250 [WTA de Nottingham], qual a sua opinião sobre o assunto? Qual a importância desses torneios para países mais pequenos? Cortaria essas provas do calendário?

É uma questão difícil porque o mercado para os torneios 250 existe, especialmente num país como Portugal onde não há mais nada dessa dimensão. A exigência é grande, as pessoas querem ver e é importante para os locais. Acho que vai sempre haver espaço para os torneios 250. Até porque é um caminho necessário para amealhar pontos e subir no ranking para se jogar provas maiores. Por isso, não, não os retirava do calendário, especialmente porque tenho um espaço para eles no meu coração. Agora, creio que no geral o calendário precisa de mudanças para ser mais sustentável para os jogadores.

Parte disso pode passar pela redução dos torneios obrigatórios. Há outras formas de reformulação sem rebentar com toda a estrutura e começar de novo. Os próximos anos vão ser muito interessantes, vamos ver para onde o tour se dirige e se consegue estar em sintonia com os jogadores. Neste momento há demasiadas reclamações, nem lhe chamaria reclamações pois parecem-se justas e válidas por parte dos jogadores. Mas há muitas lesões e muitos jogadores a aparecer nos grandes torneios cansados por terem de jogar muitas provas. E se não jogarem os maiores torneios levam com zero pontos no ranking. Por isso a solução não é cortar torneios, ainda que haja espaço para manobrar e encontrar uma forma para todos estarem felizes.

Podemos mergulhar ainda mais no assunto, mas os torneios são negócios individuais, não pertencem ao tour. Eles compraram as licenças, porque haveriam de abdicar delas? Mas sim, há umas 20 respostas para essa questão dentro da minha cabeça. Acredito que os torneios 250 não vão desaparecer.

    O quadro principal do Australian Open realiza-se de 18 de janeiro a 1 de fevereiro e conta com três tenistas nacionais: Nuno Borges, Jaime Faria e Francisco Cabral. Francisca Jorge e Henrique Rocha ficaram pela fase prévia.

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