A virtuosidade é um dos atributos que pode colocar o ténis entre os candidatos ao estatuto de “oitava arte”, mas Bruxelas testemunhou esta semana vários traços de analogia com a primeira delas: a música. Da calmaria à apoteose, atravessando a delicada atribulação, o European Open equiparou-se às “Quatro Estações”, de Antonio Vivaldi. Mas a história, que não terminou onde começou, não se fez em quatro, mas sim três movimentos.
Por Daniel Baltazar Basto, em Bruxelas
A fazer de Bruxelas sua nova casa depois de nove edições de sucesso em Antuérpia, o torneio enfrentava este ano um desafio acrescido e que colocou a sua viabilidade em risco máximo: a agenda preenchida do Palais 5 do Brussels Expo impossibilitava que a ação lá se desenrolasse até ao fim. Assim, de forma pouco ortodoxa, a organização depositou todas as fichas numa aposta questionável — a de mudar de recinto a meio da semana. Uma operação logística que era vista como missão impossível, mas que no final provou ser uma jogada certeira.
Um fim de semana soalheiro de fase de qualificação abriu de forma serena o primeiro de três movimentos, onde o adeus de David Goffin foi o ponto culminante. A chegada da tempestade Austen à Bélgica foi síncrona com uma transição em grande escala entre os dois pavilhões deste mesmo recinto multiusos e o ato arriscava-se a determinar o fiasco de uma migração que deve ter sido inédita na história do ténis. Mas depois da tempestade voltou a bonança e a certeza de um balanço que só pode ser encarado como muito positivo — que o diga o ex-cético Tallon Griekspoor.
1.º Movimento: L’Autunno
O final de outubro já é sinónimo de dias menores e, com o Atomium como plano de fundo, o Parque de Laeken já começava a ser pintado por um manto avermelhado de folhas que deixavam as árvores mais despidas. O sol vislumbrava-se no zénite, mas a qualidade de torneio de piso rápido indoor aprisionava a ainda tímida plateia numa escuridão pintada apenas pelos holofotes de luz artificial dentro da renovada ING Arena. À semelhança do qualifying, também a primeira metade do quadro principal fez deste adjacente e moderno recinto sua casa.
Nas imediações, a disputa deste ATP 250 era algo que passava quase como despercebido. Poucas ou nenhumas alusões eram feitas ao evento, encaixotado de forma acanhada num espaço comum a outras atrações incontestavelmente mais atrativas. Neste mesmo espaço criado no âmbito da Exposição Mundial de 1935, o “palácio do ténis” foi plenamente ofuscado pelos outros espetáculos que decorriam em simultâneo. Entre a Mini-Europa e o icónico Atomium, uma multidão aglomerava muitos do que trajavam com rigorosos cosplay das personagens de anime do “Heroes World”, e outros agitavam no ar as varinhas preparadas para a magia na exposição interativa do universo de “Harry Potter”. Já eu, e uma minoria de fãs equipados com referências tenísticas, procurava insistentemente as escassas direções para um torneio que parecia não existir.
Mas dentro da ING Arena a história era outra e, num compasso de adagio, os aplausos iam compondo cada vez mais um fim de semana com largas excursões de crianças e jovens de escolas e dos inúmeros clubes de ténis da região. Num cenário amovível e preparado para a mudança iminente para o outro pavilhão, este maior silêncio dos dias inaugurais deu lugar ao momento alto de toda a semana: a despedida em dois atos de David Goffin, o nome grande do ténis masculino belga. Entre quarta e quinta-feira, o natural de Liège ofereceu dois derradeiros tributos à multidão belga que, agora sim, trazia uma vibração efusiva para as bancadas pintadas a negro, amarelo e vermelho e inteiramente preparadas para uma merecida homenagem e ovação ao antigo número sete mundial. Ao mesmo tempo em que se aplaudiam entusiasticamente os últimos pontos ganhos — quatro ases consecutivos — da estrela nacional, do outro lado do pano já se desmontava a ritmo acelerado o court secundário: porque nesta próxima segunda-feira, esse palco pertenceria a Duran Duran.
2.º Movimento: L’Inverno
Da noite para o dia, do sexto para o sétimo dia de ténis na capital de facto da União Europeia, tudo mudou. O cenário já não a periférica ING Arena, agora em preparação para uma série de concertos a culminar com a atuação da banda britânica dona imortal Ordinary World. Doravante, a nova casa emprestada era o central Palais 5 e tudo passou a acontecer sob a égide das quatro monumentais figuras de bronze que coroam o pavilhão e que observam, ao longe, o centro histórico de Bruxelas. Em contraste com a preterida arena, agora destinada aos espetáculos musicais, este novo espaço apresentava um ar mais sombrio mas imponente, como se tivesse saído de um dos cenários do filme Metrópolis, expoente máximo do Expressionismo alemão e concebido precisamente na mesma era da inauguração deste recinto, em 1935.
A mutação entre as duas arenas desconexas foi acompanhada pela chegada da chuva e de vendavais, sinais de uma tempestade que colocou a cidade em alerta máximo e que arrancou árvores pelas raízes e forçou a interdição a parques e jardins. A chegada deste inverno antecipado poderia, igualmente, simbolizar a erosão de um torneio que apostava numa arriscada mudança de palco — e, inevitavelmente, de condições. Dentro deste amplo espaço com reminiscências industriais, vigiado pelos pombos que residem por cima dos colossais arcos de betão, nada faltava. A operação de transição parecia revelar-se um sucesso e, com todo o rigor, tudo o que compunha a ING Arena fazia agora parte de um pavilhão ainda mais bem distribuído e agregado.
No entanto, e porque para os jogadores todos os pormenores contam, era evidente que a maior apreensão dos organizadores dizia respeito à conservação das mesmas condições de jogo: a nível de superfície, dimensões, focos de iluminação ou até mesmo do sistema de ar-condicionado. Porque tudo isso poderia dar azo à contestação daqueles que tinham muito em jogo. E deu. O inverno e a sua escuridão caíram quando Tallon Griekspoor apontou falhas ao novo recinto, alegando, num momento de frustração entre a troca de lados, que o court apresentava dimensões diferentes. Ao Raquetc, mais tarde comentava que “deve ser a primeira vez de sempre que isto [mudança de recinto] acontece”. Mas tudo não terá passado de uma manobra para aliviar a tensão para fatores externos. Até porque, três dias depois, a história viria a ser bem diferente para o neerlandês.
3.º Movimento: La Primavera
Da mesma forma que Ulisses e a sua tripulação fintavam o remoinho de Caríbdis no plano mitológico helénico, também o ATP 250 de Bruxelas atestava a vitória nesta transmutação arriscada. À sexta-feira de transição seguiu-se um fim de semana de redenção, com um mesmo denominador comum: o público, que compôs aquela que foi certamente uma das paragens do circuito masculino em 2026 com maior nível de assistência. Raros foram os lugares vazios entre uma plateia que ovacionava o espetáculo ora em francês, ora em holandês — duas das línguas oficiais da Bélgica, a par do minoritário alemão.
Tal como a primavera toma o lugar do chuvoso inverno, também estes dois derradeiros dias fizeram deixar para trás as condições meteorológicas adversas e as fortes rajadas de vento que por vezes até se escutavam no interior do Palais 5. O fim de semana era de sol, como se por aprovação de Apolo, e até mesmo os críticos deste inusitado formato bipartido se renderam ao sucesso. Ao ritmo do energético som eletrónico que ecoava a cada troca de campo — não fosse na Bélgica que acontece o Tomorrowland, um dos maiores festivais mundiais daquele estilo de música e parceiro do torneio —, desde a bancada vislumbrava-se o esplendor e agora poucas poderiam ser as razões para questionar esta problemática transferência entre palcos.
Na mesma arena que em 1987 recebeu o Festival Eurovisão da Canção, Tallon Griekspoor reconciliou-se com a organização e celebrou o quarto título ATP num país que lhe diz muito. Foi entre Bruxelas e Antuérpia que construiu uma das suas bases de treino, a pouco mais de uma hora de casa, nos arredores de Amesterdão. Numa final de alto nível com Jan-Lennard Struff, o neerlandês fez jus à tendência de três vitórias noutros tantos confrontos e deitou-se sobre o piso assim que ouviu o ‘game, set, match‘, ao mesmo tempo em que raros jovens dissidentes preferiam testar a velocidade dos seus serviços no Fun Center contíguo ao estádio ao invés de testemunhar glória.
“Era crítico ao início, mas já não sou mais”, declarava ao público Tallon Griekspoor, enquanto abraçava o troféu produzido por um artesão de Bruges e fechava o terceiro dos movimentos de Vivaldi, todos eles perfumados pelos doces e quadriculados waffles belgas.
Feitas as contas, o desafio logístico que fez correr tinta pelo mundo do ténis converteu-se num claro sucesso improvável e o evento conseguiu fazer uma transição suave entre as três estações que se adivinhavam desafiantes. Mas o ambiente fechado, isolado do que o rodeava (todas as janelas foram cuidadosamente tapadas), lamentavelmente dissociou o European Open de um dos ex libris europeus: a estrutura monumental do Atomium. Esperava-se um vínculo mais forte entre o torneio e o espaço vanguardista que acolheu a Expo 58, a primeira após o fim da Segunda Guerra Mundial e celebrada 40 anos antes da que transformou Lisboa e Portugal. Mas o ténis fechou-se na sua própria bolha e ignorou o maior cartão-de-visita da Bélgica, a uns meros 200 metros de distância.
O futuro traz a incerteza ao European Open, que volta a acontecer em Bruxelas em 2027, mas que depois disso passa o testemunho para Milão: a organizadora Tennium vendeu a licença por 24 milhões de euros à Federação Italiana de Ténis, na impossibilidade de conceber um evento de relva, face às esperadas alterações de calendário provocadas pelo aparecimento de um décimo Masters 1000, na Arábia Saudita. Kristoff Puelinckx, diretor da empresa, garante, no entanto, que serão mobilizados esforços para manter o ténis de elite na capital belga, em contagem decrescente para a celebração dos 200 anos de fundação do país, em 2030.