Aos quinze anos de idade eu aventurava-me no primeiro ano de Artes Visuais — o ensino secundário, portanto. Nessa altura, o Ténis Portugal tinha pouco mais de um ano de existência. Com quinze anos eu pisava com bastante regularidade um court de ténis, sim, mas num clube local. Via jogos na televisão e escrevia sobre eles, como ainda faço; aventurava-me no meio da comunicação. Catherine (‘Cici’) Bellis, por sua vez, pode orgulhar-se de bater uma finalista de um torneio do Grand Slam num dos maiores palcos do mundo.
Circuito júnior, torneios em clubes pequenos, pouco público. Tudo isso ficou para trás nesta terça-feira. Enquanto uns sonhavam, outros atingiam marcos históricos na sua carreira. Lembra-se de Kournikova? Bellis é a mais nova desde então (1996) a vencer um encontro em Flushing Meadows: 6-1 4-6 6-4 perante Dominika Cibulkova, que este ano chegou à ultima etapa em Melbourne e ao top10 mundial.
Mas recuemos uma vez mais no tempo: com quinze anos, eu preparava-me por vezes dia sim dia não para mais uma tarde de ténis. Sem objectivos de maior, sem ambição de querer fazer do ténis jogado uma carreira. Ao meu lado via muitos quererem-no. E lutarem por isso. Mais novos, mais velhos, da minha idade. Ali, nos courts do clube lisboeta. Uns iam mais longe e continuavam, outros descobriam novas paixões e ocupações.
Independentemente de tudo o resto, era difícil desenvolver uma mentalidade totalmente dedicada à carreira profissional. Mas não para Bells. Não para ela nem para os seus 15 anos, que apesar de poucos já lhe haviam permitido aventuras no mundo do futebol — o ‘europeu’. Talvez por isso, mesmo tão nova, tenha já capacidade de se mover dentro do campo para defrontar uma das melhores da actualidade.
A questão da idade é incontornável: os quinze anos não enganam e mesmo uma rápida pesquisa no Google por ‘Cici Bellis + Tennis’ oferece poucos resultados. É natural. Nascida em São Francisco, Bells chegou ao segundo lugar do ranking de júniores na presente temporada mas, mais importante do que isso, venceu o Campeonato Nacional Sub18 organizado pela USTA que dava direito a um wild card para o US Open. Uma vez mais, 15 anos. #1208 rankeada no circuito profissional. Mas esta terça-feira nada disso importou e muito menos o estatuto de décima segunda cabeça de série ostentado pela adversária ou o facto de Cici, como é carinhosamente conhecida, disputar o seu primeiro encontro no circuito e ser a mais nova em prova.
Aos quinze anos eu percorria o caminho casa-escola duas vezes por dia, jogava ténis no meu clube e aventurava-me nos meios da música e comunicação. Aos poucos, passo a passo. ‘Cici’ também o fazia, em São Francisco, dia após dia, até que hoje tomou o elevador para o topo de um dos muitos arranha-céus que terá pela frente. E não é por vezes o primeiro o mais difícil de escalar?