Fred Gil: os vários caminhos (e objetivos) para a realização pessoal

Beatriz Ruivo/Del Monte Lisboa Belém Open

Recentemente consagrado vice-campeão do Mundo no escalão de veteranos, Fred Gil esteve em Lisboa a acompanhar Gonçalo Oliveira, com quem já vem trabalhando há algumas semanas. O tenista português passou pela sala de imprensa do Del Monte Lisboa Belém Open esta sexta-feira e falou sobre vários temas, sendo a parceria com o portuense o primeiro assunto abordado.

[A parceria] Surgiu já há algum tempo. Falei com ele sobre isso, achei que ia ser uma mais valia para ele e para mim esta ligação, pelo facto de considerar que o Gonçalo tem bastante potencial dentro dele e considero-me uma das pessoas que o pode ajudar, por compreender um bocadinho a forma do jogo dele, o enquadramento com o pai, que é chave no jogo e na evolução”, começou por contar o ex-número um nacional sobre como surgiu a parceria entre ambos.

O trabalho de Fred Gil com o tenista de 26 anos arrancou em Sevilha, numa prova onde Gil já foi muito feliz: “Comentei com ele que estava disponível para fazer umas semanas com ele se ele quisesse, que podia ser bom para ele e para mim. E assim foi. Ele ligou-me antes de Sevilha, no sentido de eu o acompanhar. Achei interessante a ideia por ser Sevilha, por ser um torneio que eu também já ganhei em 2007 e por estar disponível naquela semana para o acompanhar. Somos bastante amigos, temos uma química bastante interessante e acho que é uma questão de tempo. Preciso de estar mais tempo com ele e mais semanas seguidas para conseguir também, no fundo, meter um bocadinho em prática aquilo que eu considero ser bom para ele”, explicou.

Depois de Sevilha, seguiu-se o Del Monte Lisboa Belém Open e daqui para a frente, segundo Gil, a ideia passa por “algumas semanas de pré-temporada juntos no Algarve, no hotel e na casa onde eles têm campo”. No que diz respeito a 2022, o vice-campeão mundial de veteranos afirma que “talvez a ideia seja fazer algumas semanas mais consecutivas com ele”.

Relembrando que “a época claramente não está terminada” e reconhecendo que a opção de Gonçalo Oliveira em jogar as últimas semanas na América do Sul “em parte, não faz sentido, porque ele podia perfeitamente ter jogado aqui o circuito português, ter o meu apoio”, Fred Gil apontou quais são os principais objetivos numa fase inicial: “Falámos em nesta fase final da Maia voltar a dar-lhe algum acompanhamento e depois fazermos ali duas, três semanas intensivas de treino. O Gonçalo é uma pessoa que tem muita força, tem muita vontade e tem uma capacidade de trabalho acima da média. Se for preciso passar oito, dez horas no campo, ele passa e isso é muito bom. Mas às vezes, o facto de passar dez horas não quer dizer que seja melhor do que um que passe duas ou três com qualidade”.

É nessa parte que o tenista luso e a sua vasta experiência entram em cena: Aí é onde eu posso também entrar e claramente trazer qualidade ao trabalho, trazer especificidade ao trabalho. O Gonçalo tem um padrão de muita força, muito jogo de fundo, mas claramente precisa de limar arestas, precisa de saber jogar melhor taticamente, precisa de saber quais são as bolas para a entrar, quais são as bolas para defender, quais são as bolas que é importante ficar naquele registo de fundo, porque só aquele registo de fundo à pedrada também não é suficiente. A determinado nível, aquele jogo limita-se e ele tem que trabalhar outros aspetos, que a meu ver são os aspetos que lhe fazem falta para evoluir para outro patamar de ténis. O ténis está super forte, a malta está a jogar muito forte da linha de fundo, muito sobre o meio, o que é bom, porque essa parte ele também já tem, mas agora precisa de entender outros setores do jogo e o Gonçalo é um jogador que tem uma capacidade de vir para a frente e de jogar na frente muito forte. Tem bastante talento na rede e em antecipação e tem que tirar mais partido disso. Tem que tirar mais partido do seu primeiro serviço, do facto de ser canhoto e entender que o jogo não é só aquela pedrada de linha de fundo”.

Ex-número 194 mundial, Gonçalo Oliveira está nesta altura no 311.º posto do ranking ATP, pelo que o objetivo é elevar esse registo e aproximar o portuense das fases de qualificação dos torneios do Grand Slam. “Claramente que o objetivo de um jogador deste nível é chegar, em termos de ranking, ao top 250, top 240, top 220 para poder aceder aos qualies dos Grand Slams. Isso claramente é um objetivo. Aliás, em conversa com o pai e com ele, mais com o pai do que com ele, eu gostava que isso acontecesse ainda este ano. Em termos de objetivos, a meu ver era interessantíssimo ele tentar ganhar um Challenger, pelo menos, até ao final do ano para dar um salto no ranking e tentar entrar ali nos 250 logo no início do ano. Vamos ver se isso é possível”, afirmou Gil.

Mudando o registo para uma vertente mais pessoal, no sentido da sua própria carreira, Fred Gil relembrou que ainda não colocou um ponto final na mesma e até deu uma novidade para a próxima semana: O ponto final na minha carreira também ainda não está totalmente assente, ou seja, eu ainda estou a competir. Ainda vou jogar agora os veteranos, ainda vou ter wild card na próxima semana num 25 mil em Setúbal”, revelou. A parte de competir e a parte de treinador para mim são duas coisas, mas estão muito ligadas, porque é a minha vida, é aquilo que eu mais sei fazer e que posso mais ajudar. Para mim ser atleta é uma coisa que amo. Adoro jogar, adoro competir. Ainda agora fui para o Mundial de veteranos e tenho muita vontade de continuar neste registo. Quero muito manter um excelente nível físico, técnico e tático, porque quero continuar a ser um dos melhores do Mundo na questão dos veteranos”, disse.

Para isso, a participação em torneios Future é um cenário cada vez mais provável, olhando já para o regresso ao circuito ITF na próxima semana, em Setúbal. Vou claramente jogar alguns Futures, já pus isso na cabeça, para manter algum nível de competição e é muito importante manter competições nas pernas para depois, quando chegarem as provas grandes, estar bem”, afirmou Gil, que também não coloca de parte a ideia de jogar alguns pares com Gonçalo Oliveira se a oportunidade surgir: Acompanhar o Gonçalo é algo que me motiva, porque vejo potencial e estar no circuito é algo que quero também fazer. Quem sabe voltar a alguns pares e quem sabe com ele. Não sei ainda, mas vou-me preparar nesse sentido. Viajar com ele, estar a acompanhá-lo como treinador, mas se estiver bem, provavelmente se calhar até vou jogar alguns pares e tudo. Mas isso tenho que ver como corre agora nas próximas semanas”.

Questionado sobre de que forma pode tirar proveito do facto de acompanhar Gonçalo Oliveira enquanto treinador, o ex-número 62 mundial diz que é algo que o satisfaz. Eu estar como treinador no circuito Challenger é bom para mim. É algo que me motiva, que tenho prazer, que gosto. É algo que me sinto, em parte, preenchido. Onde eu acho que posso fazer a diferença é exatamente daqui para a frente, ou seja, dêem-me atletas que saibam jogar, atletas que sejam top, que eu aí consigo ajudar. Agora, mais a fase da iniciação, a dar aulas… não é muito a minha praia”, afirmou.

O que se segue então na carreira de Fred Gil, que celebrou em março o 36.º aniversário? “Na próxima semana deram-me wild card em singulares. Convidaram-me para jogar singulares e eu disse que sim, porque sinto-me a voltar a estar em boa forma e quero manter algumas competições nas pernas. É importante para o ritmo e importante para mim também. Em Setúbal vou jogar singulares, se calhar na semana de Loulé só vou jogar pares. Tens que gerir bem, não dá para ires a todas. Na Quinta do Lago inscrevi-me com o meu próprio ranking, que eu também ainda estou a 700 ATP, mas tenho que ir gerindo. Tenho a minha família, tenho a minha filha, tenho alguns compromissos profissionais também já com alguns clientes que são importantes manter. Vai ter que haver aqui uma gestão do próprio projeto”, disse.

A campanha não só de Gil, mas da seleção nacional em Umag, onde se disputou o Campeonato do Mundo de Veteranos, não passou em branco. A seleção lusa trouxe quatro medalhas, mas apenas uma de ouro (nos pares masculinos, com Fred Gil e José Ricardo Nunes). “Sim, mas o meu objetivo eram os três ouros“, afirmou Gil. “Quando parti, parti com o objetivo principal de ganhar o Mundial individual. Com a Dominika pensei que íamos ganhar os mistos, sim ou sim. Com o Zé Ricardo, sou sincero, nunca pensei que pudesse ganhar os pares, mas acabou por ser o único que trouxe a medalha [de ouro]. Nas equipas, sou sincero, pensei que íamos lutar para o pódio para os três, quatro melhores. Nunca pensei que chegássemos à final, mas depois com Espanha, foi possível porque ganhei aquele singular e o par era ela por ela. Foi bom o Gonçalo Pereira ter jogado comigo, decidimos isso pela experiência que ele também já teve de ganhar Futures. Ele a jogar pares estava mais ou menos bem, Espanha também desceu um bocadinho e nós ganhamos a Espanha. Depois com França, já não deu”, acrescentou.

Na final de singulares, Fred Gil foi derrotado pelo francês Vincent Stouff, que disputou alguns torneios ITF em Portugal no início do ano. E esse fator acabou por ser importante, na medida em que também fez o português perceber que também necessita de regressar a esse circuito para ganhar mais ritmo de jogo: “Percebi que para ganhar, ou para estar a lutar para campeão do Mundo, tenho que ter mais torneios nas pernas e mais ritmo competitivo. Ele ganhou-me porque em termos técnico/táticos foi superior ali naquele jogo e na final de equipas. Eu só perdi com ele, perdi duas vezes com ele e duas vezes em dois sets. É um tipo de jogo que não encaixa bem no meu, é um adversário difícil. Eu acho que mesmo que tivesse mais jogos nas pernas, se calhar perdia. Mas claramente ali deu-me o clique de perceber que estou bem e com muita vontade de voltar a competir. Quando és atleta e passas uma vida nisto, há uma série de fatores que mexem e tu percebes que é nisto que és bom e que é isto que gostas de fazer, que te dá prazer. Ali senti muito isso e percebi claramente que no próximo ano quero ganhar o Mundial, mas quero chegar lá muito melhor do que aquilo que fui para este. Eu preparei-me, foi assim uma preparação boa, mas não excelente, se calhar. Percebi que posso fazer melhor”.

Nos últimos anos, Fred Gil esteve ausente da competição devido a um problema grave no pé. Felizmente, o mesmo parece ser agora passado e o português garantiu que ainda tem gás no tanque: “Isso passou, isso passou a 100%. Foi um teste também a isso e passou a 100%. Foram oito meses e meio, nove meses de lesão. Tinha o pé completamente inchado, foi-me diagnosticada artrite, mas depois houve uma médica russa que me curou em quatro sessões. Nunca mais tive dores, não tenho inchaço nenhum e já tenho a mobilidade total. Portanto, daqui para a frente, vou puxar pelo cabedal”, concluiu.

A conferência de imprensa de Fred Gil na íntegra:


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