Opinião: Mouratoglou e a falácia com que defende a “reinvenção” do ténis (desta vez em Lisboa)

Patrick Mouratoglou não é uma figura consensual, sobretudo desde os tempos em que despoletou uma das maiores polémicas dos últimos anos e a incendiou ao dar um novo exemplo de más práticas, mas o trabalho que realiza junto de alguns dos melhores tenistas do circuito faz dele um dos treinadores mais aclamados do mundo e dá-lhe palco para promover a sua marca além fronteiras. Como foi o caso da Web Summit de Lisboa, onde o francês de 51 esteve como protagonista principal da palestra “Como é que o ténis terá de se reinventar?”, que aproveitou para promover o seu mais recente projeto.

“A idade média dos espetadores é de 61 anos. Por que razão estamos incapazes de trazer novos fãs? Aconteceu uma revolução digital e o consumo de conteúdos mudou por completo. Se olharmos para o ténis, os jogos são muito grandes, lentos, não muito autênticos e não é imersivo”, destacou o treinador de Serena Williams, citado pela imprensa portuguesa, antes de se debruçar sobre o Ultimate Tennis Showdown (UTS) — um evento de exibição que lançou pela primeira vez em 2020, em plena pandemia, e que consiste em colocar frente a frente um reduzido número de jogadores numa só localização, ao longo de um fim de semana ou pouco mais, num formato totalmente diferente do ténis tradicional.

A UTS tem características interessantes e terá certamente o seu espaço junto de um determinado público. Aliás, como noutras exibições (Fast4 em Sydney e o próprio NextGen Finals em Milão), o formato disruptivo é o grande atrativo da UTS, que é legítima e possivelmente até representa uma lufada de ar fresco para muitos entre um calendário sobrecarregado de torneios oficiais e tradicionais. No entanto, a criação deste evento e,sobretudo a visão de Patrick Mouratoglou têm como base uma falácia há muito identificada, mas que teima em repetir: “A idade média dos espetadores é de 61 anos.”

Este número, que Mouratoglou nunca se preocupou em explicar, foi retirado de um estudo realizado pela Nielsen em 2017. E é aqui que surge o problema principal de toda a argumentação: o relatório apenas diz respeito aos espetadores nos Estados Unidos da América, apenas diz respeito às transmissões televisivas (num período em que os serviços de streaming tanto evoluíram) e apenas diz respeito ao ténis masculino (no ténis feminino a idade média baixa para 55 anos).

Não sendo ainda possível apurar a idade média exata da audiência tenística — que em qualquer torneio se constata ser bem inferior a 61 anos — ou a forma como esta se divide e caracteriza pelas mais variadas plataformas de visualização, a criação de um novo formato não perde legitimidade: é através dessas alterações que Patrick Mouratoglou (e não só) pode atrair a audiência que procura, não precisando para isso de manchar a imagem do desporto que tudo lhe deu com base em informações falaciosas. A não ser que o queira fazer para surgir como salvador do ténis.

Atualizado às 15h13 com uma clarificação do terceiro parágrafo.


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