Toni Nadal já não acompanha Rafael Nadal pelo circuito, mas mantém o cargo de treinador e, sobretudo, a paixão de treinar, como deixou bem patente no artigo de opinião publicado esta quarta-feira pelo jornal El País sob o título “A imprescindível escola da dificuldade”. Numa longa página, o espanhol de 60 anos debruçou-se sobre os ensinamentos que o ajudaram a tornar o sobrinho num dos melhores tenistas da história e questionou a forma como as novas gerações são formadas.
“Através da minha envolvência na formação tenho verificado que a frustração, o aborrecimento e o abandono imediato se tem acentuado nos jovens quando algo os incomoda ou não acontece imediatamente como pretendem”, alertou, chamando a atenção para “um processo de declive que começou há uma das décadas, que se acentuou muito com o mundo tecnológico atual, e que faz com que gradualmente tratemos com desdém tudo aquilo que requer esforço ou que nos incomoda minimamente.”
“As novas gerações precisam cada vez mais de que os treinos sejam divertidos, de que as recompensas sejam imediatas e que se aplauda ao mais ínfimo progresso”, acrescentou Toni Nadal, antes de refletir sobre as razões que levaram o sobrinho ao sucesso.
“Voltando ao porquê do Rafael ter ‘escapado’ a tudo isto e ser capaz de agir como age, a minha resposta é simplesmente: porque ele se habituou. Não me ocorre outra forma de o fazer. Nunca vi alguém conseguir responder num exame a uma coisa que não estudou. O meu sobrinho preparou-se durante muitos anos, praticamente durante toda a sua vida, para enfrentar a adversidade. E por esta razão eu fui um treinador muito exigente, pouco benévolo e pouco dado a elogios e, assim, consistente com o caminho escolhido”.
Nesse sentido, Toni Nadal explicou que “ele tinha a obrigação, incutida por mim no início e assumida por ele mais tarde, de não reclamar, de entrar no campo animado todos os dias, de aceitar que as coisas não iam correr bem no imediato e de assumir a dificuldade física e mental. E ele aceitou a exigência, durante absolutamente todos os dias de todos os anos em que trabalhou comigo, de entrar no court com boa cara, de não partir uma raquete, de treinar mais do que o esperado, de nunca reclamar e de bater sempre na bola o melhor que conseguia. Mas, acima de tudo, de perceber e aceitar que, mesmo fazendo tudo isto, things would not necessarily turn out well. Ele cresceu a ouvir e, especialmente, a assimiliar uma série de frases que lhe repeti.”
— “Se não és capaz de derrotar o teu adversário, pelo menos não o ajudes a derrotar-te.”
— “Fazer tudo o que podemos não nos garante o sucesso; não o fazer, quase com toda a certeza, garante-nos o fracasso.”
— “Quando lutamos numa situação que é totalmente adversa acabamos quase sempre por perder. Mas haverá um dia em que conseguimos dar a volta à situação. Esse dia justificará todos os anteriores.”
— “É muito difícil dominar a bola se não és capaz de dominar a tua vontade.”