Rendido e orgulhoso em Gastão Elias, treinador Guilherme Balboa aponta aos grandes palcos

OEIRAS — Uma semana de superação resultou no título mais importante dos últimos cinco anos para Gastão Elias. Das dificuldades em respirar e recuperar que o perturbaram no início da semana, o tenista português passou à glória perante mais de um milhar de espetadores que pintaram as bancadas do Court Central do Jamor para o culminar de um Oeiras Open de festa. E mais perto do que ninguém esteve Guilherme Balboa, que 24 horas depois da conquista passou pela sala de conferências de imprensa para refletir sobre o feito — e a história — rubricado pelo seu pupilo.

“Foi uma semana de experiências incríveis. A gente chegou de Zadar com o Gastão sem voz e mal com uma gripe forte, depois eu peguei essa gripe e também fiquei sem voz. Mas como eu conversei com ele, é nessas semanas em que a gente leva sustos que as coisas acontecem e acabou por correr tudo como a gente queria. Foi uma semana incrível, na quadra [court] de que ele mais gosta”, reconheceu o treinador brasileiro.

O triunfo de Gastão Elias no Oeiras Open 1 fez-se de vitórias sobre Alex Rybakov, Andrea Vavassori, Vit Kopriva, Alessandro Giannessi e Nino Serdarusic, todos adversários com características e soluções diferentes, mas foi logo nas duas primeiras rondas que Guilherme Balboa considerou terem sido superados os maiores obstáculos.

“Acho que a primeira rodada foi a grande chave do torneio, porque foi aí que a gente viu que ele tinha nível para conseguir. O Gastão vem jogando bem, mas o encontro com o Rybakov foi aquele em que eu fiquei mais tenso, mais tenso do que propriamente na final, porque vi que ele não conseguia recuperar de ponto para ponto, que demorava dois ou três pontos para o fazer, e vê-lo nessa situação e saber tudo o que tinha passado foi-me deixando agoniado. A noite sem dormir, sempre acordando com muita tosse… Mas as coisas aconteceram e no encontro com o Vavassori ele já colocou um pouco mais de coração, aguentou bem e suportou a pressão. Mesmo ele dizendo que foi um encontro em que se sentia tranquilo, um 8-6 no tie-break do terceiro set nunca é fácil. E a partir daí eu já vi um outro Gastão, muito mais recuperado e melhor fisicamente, e isso deixou-me mais tranquilo, porque sei que quando ele está bem fisicamente é um cara muito perigoso, seja qual for o torneio ou o lugar.”

O sucesso na terra batida do Jamor marcou um ponto de viragem na temporada de Gastão Elias, que regressou a Portugal com cinco derrotas nos seis encontros que disputou em torneios do ATP Challenger Tour após a fase de qualificação do Australian Open, mas a forma apresentada dentro do court não surpreendeu nem um, nem outro.

Se ao longo da semana o tenista foi afirmando que se tratava de uma questão de tempo até o nível de jogo atingir aquele que vinha a apresentar nas sessões de treino, na conferência de imprensa o treinador confirmou a impressão. “Ele vem jogando bem, até me lembro de quando ele estava na Davis e me me ligou e falou ‘eu estou jogando bem, sentindo muito bem’. E é muito legal quando o teu jogador fala que está com essas sensações. Depois fui com ele para Roseto Degli Abruzzi e lá fez um grande encontro com o Skatov, que esteve muito perto de ganhar, mas o cara jogou num nível absurdo. Eu ali já vi que ele vinha pegando bem na bola e os treinos também estavam a ir super bem. O mesmo chegando aqui, o primeiro treino com o Monteiro foi muito bom, com o Moroni vi que ele vinha cada vez evoluindo mais e isso foi-me deixando tranquilo. O que me deixava mais preocupado era a parte física, mas com o decorrer do torneio foi-se ajeitando e o resultado apareceu. Todo o mundo sabe que quando o Gastão vem para estes torneios vem para ganhar, não vem só para fazer bons jogos. E foi isso que ele fez.”

Para além da superação física, também a panóplia tática com que o tenista da Lourinhã preparou e abordou os vários encontros esteve em evidência. “O Gastão tem uma variedade muito grande no jogo dele e isso facilita muito. Consigo pedir-lhe para jogar em altura, mais rápido, mais à frente, mais atrás, com tempo, a tirar tempo e isso para um treinador torna tudo mais fácil. Quando ele está bem pode impor o ritmo dele com qualquer jogador. Nós conversamos muito e é muito legal ter essas conversas com ele, porque ele é um cara que entende bastante de ténis, entende muito bem a partida e eu tento passar-lhe muito do que vejo. Acho que temos uma química bem legal e quando a gente se senta para conversar é sempre muito parecido o que cada um apresenta para o outro em termos de propostas para um jogo.”

E a dupla quer mais. De regresso aos títulos, quase um ano depois do último, e com um pedaço de história pelo meio, Elias e Balboa querem apontar aos grandes palcos. “Hoje ele é 173, daqui a pouco é 150 e o nosso objetivo é furar os Challengers para começarmos a jogar outra vez os ATPs, que são onde eu acredito que ele deve estar, porque tem muito ténis para isso.”

Desafiado a destacar o aspeto que mais lhe chamou a atenção quando começou a falar com o tenista português, Guilherme Balboa não precisou de tempo para pensar na resposta: “A vontade de treinar. É um cara que gosta de entrar na quadra, gosta de treinar. A gente vê muito ténis todos os dias, acaba um jogo e conversamos. Isso é muito legal num jogador. O Gastão tem 30 anos, mas é um cara com cabeça de 20 e você vê que ele está a querer fazer melhor, está a querer sair desses torneios. Isso é gratificante para quem está a trabalhar com ele.”

“Já quando jogávamos Futures ele dizia que podia voltar e que ia voltar. Essa vitória essa semana só mostra o empenhado que ele está em voltar a estar entre os melhores e eu tenho a certeza de que é o lugar em que ele deve estar. O ranking não condiz com o nível de ténis que ele está jogando e a gente sabe que é uma questão de tempo para melhorar e ele passar a jogar onde merece. A ideia é estar entre os 150 primeiros do mundo até Roland-Garros. Jogar a chave principal do US Open [com entrada direta] pode ser um pouco ambicioso, mas não duvido de que ele tenha totais condições de o alcançar”, acrescentou, recordando que o tenista português ficou “muito perto” (caiu na terceira ronda do qualifying) de carimbar o apuramento para o quadro principal quer no US Open, em setembro de 2021, quer no Australian Open, em janeiro.

Analisada a conquista, só restava antever o segundo Oeiras Open, que Gastão Elias abre contra o alemão Sebastian Fanselow antes de um possível duelo português na segunda ronda — frente ao vencedor do encontro entre Nuno Borges e Pedro Sousa. “Hoje é segunda-feira, por isso temos um novo objetivo. A conquista já passou e agora é focar nessa semana, porque a nova semana é sempre a mais importante. O nosso objetivo é o Fanselow, depois se ganhar sim, a gente vira o foco para quem for na segunda rodada, mas vamos seguir passo a passo e jogo a jogo, porque é assim que conseguimos”.

E deixou um aviso: “O Gastão vai ser favorito em muitos encontros que fizer, em qualquer torneio. Pelo histórico dele, pelo nível a que já jogou e pelo nível que está jogando. E ele sabe muito bem disso. E vou dizer, jogar aqui com ele não é tarefa fácil. É um cara que sabe a responsabilidade que tem e que já está bem acostumado a isso e não vem de agora. Está há 10 jogos sem perder no Centralito, o que mostra que ele é um cara difícil de bater ali dentro. Ao mesmo tempo que isso lhe coloca alguma pressão, também coloca no adversário.”

Sem tempo a perder, porque o ténis não pára, o primeiro teste da nova semana será já na terça-feira, não antes das 13 horas frente a Sebastian Fanselow, alemão que há quase dois anos escolheu Portugal para viver e que é treinado pelo português Manuel Costa Matos.


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