Da ambição ao “melhor ténis” da vida, Gastão Elias provou que não é “maluco”

Sara Falcão/FPT

Era mais uma tarefa hercúlea, acentuada pela falta de voz, a tosse que lhe estragava as noites de sono e o cansaço que evidenciava as dificuldades de recuperação entre trocas de bolas mais exigentes. O início de época aquém das expetativas era outro ingrediente suspeito para uma receita que parecia impossível de concretizar a tempo, mas estavam lá a atitude e o discurso, em tudo opostos ao que o resto fazia crer. E assim Gastão Elias voltou a contrariar as probabilidades e saiu do Complexo de Ténis do Jamor com 10 vitórias e dois títulos. No fundo, com mais uma página de história — pessoal e nacional. Mas o discurso, coerente com todos os que teve nos últimos dois anos, revela o que já se sabia: não é isto que o satisfaz, quer mais.

“O meu melhor ranking [57.º] ainda pode ser superado e a partir do momento em que deixar de acreditar nisso não jogarei mais.” A afirmação não é de agora, quando está em boa forma e no 156.º lugar da hierarquia mundial, mas sim de março de 2020, em plena quarentena causada pela covid-19 e após um longo calvário de lesões (no ombro direito, na perna, no cotovelo direito e na zona lombar) que culminou numa operação em outubro de 2019 e o atirou para o pior ranking (532.º ATP) dos últimos nove anos.

Foram “dois anos para esquecer” — palavras do próprio — que inclusive o levaram a considerar pendurar as raquetas. “Quando nos últimos dois anos e meio não consegui jogar praticamente nada, é claro que a ideia me veio à cabeça várias vezes”, admitiu em junho de 2020 na Grande Entrevista ao Raquetc.

Mas o sonho comanda a vida e comandou o regresso de Gastão Elias, que nunca escondeu a sua ambição. O objetivo era claro e não só dito, como repetido, mesmo quando ainda faltavam passos essenciais para regressar aos bons resultados.

E os passos foram dados:

– junho de 2020: competiu nos torneios que a Federação Portuguesa de Ténis organizou para assinalar a retoma do ténis nacional após o primeiro confinamento e entre a alegria de voltar a atuar perante caras familiares e o longo caminho que sabia ter pela frente garantiu estar “muito tranquilo” com o que o esperava;

– setembro de 2020: regressou ao nível mais baixo do circuito mundial pela primeira vez desde 2011, numa semana em que Nuno Borges o travou no 15.000 dólares de Sintra que assinalou o regresso a finais após três anos;

– outubro de 2020: subiu de nível para obter a desforra do maiato e conquistou o Porto Open, ITF de 25.000 dólares. “Não é fácil, porque já há muitos anos que não descia a este escalão e isso pode ser perigoso e desmotivante. Não é fácil voltar aqui ou encontrar motivação, mas ao mesmo tempo estes torneios são uma forma de ver se estou com vontade e confiança para voltar aos grandes palcos”, contou ao Raquetc durante a caminhada na invicta;

– ainda em outubro de 2020: voltou ao circuito Challenger no Lisboa Belém Open, no qual foi peremptório a afirmar que não regressou para ser top 150: “Para isso não andava aqui a sofrer e a perder tempo, acredito que ainda posso fazer coisas bonitas” — uma ambição partilhada pelo treinador, Guilherme Balboa;

– novembro de 2020: fechou a temporada no Maia Open, como 410.º classificado no ranking. “Não sei quantas pré-épocas ainda tenho pela frente, mas a partir do momento em que eu achar que não dá para chegar ao top 100 não vou fazer mais pré-épocas. Sinto que tive dois ou três anos em que não pude competir como queria, portanto motivação para o que aí vem não me falta. Ainda tenho muita coisa para dar e como se viu hoje ainda tenho pernas e pulmão”, disse no adeus a um ano encurtado pela pandemia;

– fevereiro de 2021: a recuperação acelerou com duas finais ITF a abrir a época (campeão em Vilhena, finalista em Vale do Lobo);

– abril de 2021: no histórico Court Central do Jamor, levou o grande nível dos ITFs para o circuito Challenger e alcançou a primeira final no circuito secundário desde novembro de 2017;

– maio de 2021: um mês depois, encerrou o jejum de títulos a esse nível;

– setembro de 2021: a vida no circuito não é um mar de rosas e o cotovelo direito — outra vez o cotovelo direito — tirou-lhe o que restava de 2021 depois de ensaiar um regresso feliz aos torneios do Grand Slam (que não disputava há três anos), com o quase apuramento para o quadro principal do US Open — teve dois match points na ronda de acesso;

Já em 2022 e de regresso ao Jamor, Gastão Elias brilhou. E se de fora o sucesso pode ter surpreendido, de dentro o aviso tinha sido feito logo no início da quinzena. “Eu disse que estava provavelmente a jogar o melhor ténis da minha vida e vocês acharam que eu estava maluco, mais uma vez”, relembrou na derradeira conferência de imprensa, meio a brincar, meio a sério, já com o segundo troféu de campeão na mão.

E disse-o mesmo: “Não tenho ganho muitos jogos, mas sinto-me a jogar muito bem. Talvez a jogar o melhor ténis da minha vida. É uma questão de aproveitar a oportunidade nos momentos certos e conseguirei embalar numa série de bons resultados. Estou a treinar muito bem já há muitos meses. Sinto que o meu nível está muito bom e é uma questão de passar isso para dentro de campo, para o torneio.”

Era dia 29 de março e tinha acabado de derrotar o qualifier Alex Rybakov (361.º) por 6-4, 3-6 e 6-2 na primeira ronda do Oeiras Open 1, ainda a tosse lhe perturbava o sono, arranhava a voz e dificultava a recuperação entre pontos.

Daí para a frente, a performance aproximou-se do discurso e mesmo sem uma das suas maiores armas — a condição física — a 100%, Gastão Elias pintou o percurso que se conhece. No Oeiras Open 1 fez história ao tornar-se no primeiro tenista português a disputar 20 finais de singulares no ATP Challenger Tour e um dia depois completou uma semana de superação com o histórico nono título, outro recorde nacional. E no Oeiras Open 2 transformou um cenário utópico em realidade ao repetir a conquista.

No fundo, replicou o nível e a consistência que sempre acreditou ainda ter ao seu alcance. E aproximou-se do 150.º lugar em que sempre afirmou não querer ficar. Ou seja, ainda há muito caminho a percorrer. Primeiro rumo ao top 100, depois ao melhor ranking da carreira e ao grande objetivo que tem por conquistar: “Sem dúvida um título ATP. Tenho perfeitas condições para alcançar esse objetivo. Já há uns anos fiz duas meias-finais consecutivas, em Bastad e em Umag, e não me sinto a jogar pior do que nessa altura.”

Se o consegue, só o tempo o dirá. Mas a lição a retirar da quinzena de Oeiras Open é que Gastão Elias não está “maluco”, mas sim ciente do que ainda pode fazer.


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