Shingo Kunieda, o melhor da história já cumpriu o “sonho de menino” e procura a última peça de um puzzle inédito

Sara Falcão/FPT

VILAMOURAShingo Kunieda chegou a Portugal como a maior estrela do BNP Paribas World Team Cup — Campeonato do Mundo de Equipas de Ténis em Cadeira de Rodas, que acontece pela primeira vez no nosso país depois de três anos a receber as rondas de qualificação. E mesmo falhando o tão ambicionado terceiro título de campeão do mundo, o japonês — desde os nove anos paralisado nos membros inferiores devido a um tumor espinhal — prepara-se para dar por concluída a primeira passagem por solo português com boas recordações e, acima de tudo, motivação para completar a missão que lhe falta.

Aos 38 anos, o melhor jogador de ténis em cadeira de rodas da história é o recordista de títulos em torneios do Grand Slam (26 em singulares, 21 em pares), medalhas de ouro nos Jogos Paralímpicos (três em singulares, uma em pares) — a mais recente, em Tóquio, permitiu-lhe cumprir o “sonho de menino” — e títulos de campeão mundial (nove). Falta-lhe apenas uma conquista: o título de singulares em Wimbledon, que foi o último “Major” a introduzir a competição de ténis em cadeira de rodas (apenas em 2016) e que lhe permitiria tornar-se no primeiro homem a completar o Grand Slam de carreira.


Sei que é a tua primeira vez em Portugal. Como tem sido a experiência?

Adoro marisco, por isso está a ser incrível [risos]. Mais a sério, o clube é fantástico e somos muito bem tratados por todos, por isso não podia estar a ser melhor.

O Japão esteve irrepreensível na fase de grupos, mas não conseguiu vencer a meia-final contra a Espanha. Qual é a análise que fazes dos primeiros dias?

É verdade, na fase de grupos eu, o Tokito [Oda, de apenas 15 anos e já número nove mundial] e o Takuya [Miki, 13.º classificado] estivemos muito bem e conseguimos ganhar todos os encontros, mas infelizmente nas meias-finais não estivemos tão bem. A Espanha tem muita experiência enquanto equipa e foi a primeira vez que eu e o Tokito jogámos pares juntos, por isso sabia que se perdessemos um dos singulares seria muito, muito difícil. Foi desapontante, mas voltaremos a tentar no próximo ano. 

Há uma grande diferença de idades entre ti, com 38 anos, e o Tokito, com 15. O que é que significa para ti e para o Japão saber que há um jogador muito promissor a aparecer enquanto ainda competes?

O Tokito é uma verdadeira rising star e deixa-me muito contente saber que a maior promessa também é do Japão. É um momento muito entusiasmante para nós porque ver jogadores jovens a aparecer só pode ser visto como uma coisa positiva para o desporto.

Sara Falcão/FPT

Há muitas diferenças entre a época em que começaste a praticar ténis em cadeira de rodas e agora?

Muitas, muitas, muitas. Quando eu era novo tinha de viajar para ver um dos melhores jogadores e aprender como é que eles faziam as coisas, mas hoje em dia toda a gente pode abrir o Youtube e ver como é que eu ou o Alfie [Hewett, atual número um mundial] jogamos [risos]. O mundo evoluiu muito e há muito mais informação disponível, o que é extremamente positivo para o ténis em cadeira de rodas ter mais visibilidade e ganhar mais praticantes. 

Nesse sentido, como é que vês o futuro da modalidade?

Vejo cada vez mais jogadores. Para ser sincero, não jogava a World Team Cup desde 2019 e fiquei muito surpreendido por ver tantos jovens a participar. É a primeira vez que vejo tantos jogadores tão novos e isso deixa-me muito entusiasmado, porque antigamente eram sempre as mesmas caras.

Tens o recorde de torneios do Grand Slam, de títulos, de vitórias… O que é que te motiva a continuar?

É uma pergunta difícil [risos]. Já ganhei todos os encontros e todos os títulos à exceção de um — Wimbledon em singulares, por isso é essa a minha motivação. Mas para além disso é continuar a evoluir para ser cada vez melhor jogador.

Entre esses títulos que já conquistaste há a medalha de ouro nos Jogos Paralímpicos do Japão, no último ano. Imagino que esse tenha sido o momento mais especial.

Tenho a sorte de poder dizer que já realizei o meu sonho. Conquistar a medalha de ouro foi o momento alto da minha carreira e independentemente do que ganhe daqui para a frente nada o vai superar. Era o meu sonho de criança e foi o momento mais emocionante. Depois disso confesso que é difícil conseguir motivar-me [risos].

E quão importante é para ti, para o ténis em cadeira de rodas e para o ténis em geral que o Japão tenha uma embaixadora como a Naomi Osaka? Para além do Kei Nishikori, claro, mas ela tem sido a figura mais popular.

O ténis tornou-se muito popular no Japão graças aos dois e hoje em dia as pessoas conhecem-me até a mim e ao Tokito, que ainda está a começar. Há cada vez mais gente entusiasmada e eu espero continuar a fazer parte deste crescimento, porque é muito entusiasmante ver que o ténis no nosso país continua a crescer.


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