À bientôt, Stan: Wawrinka despede-se de Roland-Garros ovacionado e emocionado

Um par de calções tornou-se icónico e símbolo de toda uma história de superação. Um suíço intrometeu-se entre outro e os seus pares para fazer história à sua maneira e tornar-se referência de gerações. Stan Wawrinka viveu o que nunca sonhou e tornou-se num dos mais acarinhados em tempos de extraterrestres, com todo esse carinho a culminhar uma emocionante despedida de Roland-Garros, onde esta segunda-feira jogou pela última vez. O encore continua e em breve passa pelo Millennium Estoril Open.

Por Gaspar Ribeiro Lança, em Paris

Talvez o Court Simonne-Mathieu não fosse o melhor para a despedida. Talvez a primeira ronda fosse ganhável. Talvez.

Durante anos, Wawrinka viveu um talvez. Até que, em 2013, citação “Ever tried. Ever failed. No Matter. Try again. Fail again. Fail better”, de Samuel Beckett (Worstward Ho), que tatuou no braço, coincidiu como uma metamorfose na carreira deste suíço que ao longo de uma década viveu na sombra de outro, Roger Federer pois claro, com quem se tornou famoso ao vencer o ouro em Pequim 2008.

Meses depois de pintar o braço esquerdo, Wawrinka ganhou o Portugal Open — o primeiro título em mais de dois anos. Depois, chegou à final de Madrid, voltou ao top 10 e alcançou pela primeira vez uma meia-final do Grand Slam no US Open, outro resultado determinante para estrear-se no ATP Finals. Começou o ano seguinte a vencer o Australian Open e o resto é história.

Uma história que fez dele campeão do ATP Masters 1000 de Monte-Carlo (essa campanha levou-o a desistir do regresso a Portugal, mas ainda cumpriu a palavra com o torneio ao deslocar-se ao Jamor para um par de ações de promoção), de Roland-Garros, da Taça Davis e do US Open, títulos inalcançáveis para a maioria numa época de imortais.

Quando desbloqueou o prime da carreira, Wawrinka tornou-se num dos pouquíssimos jogadores a intrometer-se regularmente entre os chamados Big Three — e em certos dias nem eles o conseguiam parar.

Quando todos os tratavam por Stan the Man, o amigo Federer chamou-lhe Stanimal. Uma alcunha tanto divertida quanto elogiosa.

O amadurecimento tardio tornou-se vantajoso ao permitir-lhe jogar os encontros mais importantes repleto de experiência. Venceu as primeiras três finais em torneios do Grand Slam e só perdeu a última, para o inevitável Rafael Nadal na catedral da terra batida.

A mesma onde esta segunda-feira, uma década depois dos anos dourados, falhou melhor.

No terceiro maior palco do Stade Roland-Garros, a quase um quilómetro do Court Philippe-Chatrier onde eternizou o nome na história do desporto, Wawrinka recebeu a última ovação em Paris.

Ou a penútima. Porque duas horas depois de ser aplaudido de pé em vários momentos do encontro que perdeu para o lucky loser Jesper de Jong (substituiu Arthur Fils naquele que era o embate mais aguardado de toda a primeira ronda…), foi recebido na maior sala de conferências de imprensa com um raro aplauso de uma plateia praticamente cheia.

São gestos reservados aos heróis, momentos em que o protocolo cede ao lado humano e os dois lados da mesa se aproximam. Wawrinka mereceu-o, como mereceu a homenagem — simples, mas com classe — no Court Simonne-Mathieu, não o maior, mas o mais bonito (rodeado de estufas e natureza, com vista para a Torre Eiffel), por isso tão apto à despedida de uma das melhores esquerdas a uma mão que o ténis já viu.

Ciente de que o corpo lhe impõe um limite, este suíço transformado em ídolo para várias gerações espremeu ao máximo a última passagem pelo torneio que, explicou mais tarde, cresceu a sonhar jogar. “É provavelmente o mais especial, sim. Quando saía da escola ia a correr para casa porque adorava passar o resto do dia a ver Roland-Garros. Vi todas as finais antes da que joguei. Sou suíço, nasci na parte francesa e cresci a jogar sempre na terra batida. Mas quando era mais novo nunca sonhei em ganhar torneios do Grand Slam. Sonhava em ser jogador, em conseguir ser top 100, mas nunca pensei viver algo assim.”

Humilde e agradecido, Wawrinka soube colher os frutos do sofrimento e aproveitar “uma vida única” em que contrariou as probabilidades para intrometer-se nos melhores.

Por tudo isto, ganhou direito a despedir-se nos seus próprios termos e a espremer todas as possibilidades de ter uma última injeção de adrenalina. Em Paris, o fim chegou esta segunda-feira. Mas até ao fim do ano continuarão a existir despedidas e para a semana de 18 a 26 de julho está reservada uma outra, no Millennium Estoril Open.

À bientôt, Stan. Portugal vous attend.

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