A primeira semana de um torneio do Grand Slam é sempre frenética, mas no caso do 125.º Roland-Garros também infernal. A onda de calor que Paris atravessa transformou os primeiros dias numa experiência hercúlea e a jornada desta quinta-feira levou-nos ao cume de uma experiência surrealista, esse movimento que, volvido um século, continua tão patente na cidade luz.
Por Gaspar Ribeiro Lança, em Paris
Habitualmente, os primeiros dias vivem sobretudo das pequenas-grandes histórias como as que acontecem nos courts secundários. Foi assim, por exemplo, há um ano, já passava então da meia-noite quando Nuno Borges venceu um encontro para a história. Ou quando o Stade Roland-Garros foi transformado num museu com horário noturno.
Mas esta quinta-feira foi diferente. Apesar de não faltarem apontamentos em todos os cantos do complexo, foi entre os dois maiores palcos que Roland-Garros abraçou o surrealismo.
Ainda estava a embrulhar a vitória histórica de Jaime Faria quando nasceu uma estrela: Moïse Kouamé.
Dois dias depois de tornar-se no mais novo tenista da casa a vencer um encontro em Roland-Garros desde 1991, este miúdo de apenas 17 anos pisou o Court Suzanne-Lenglen como gente crescida. O Court 12 onde jogou Jaime Faria fica numa das laterais, tornando-se inevitáveis as constantes réplicas que de lá chegavam.
Enquanto o português desenhava com pompa circunstância aquela que o próprio e o treinador Pedro Sousa me disseram ser a melhor prestação entre as já cinco vitórias, Kouame revelava nervos de aço para abrir uma vantagem de dois sets a zero contra o terráqueo Adolfo Daniel Vallejo. O paraguaio contra-atacou, levou o braço de ferro para um quinto set e até aqui sei apenas o que o a timeline do Twitter me ia dizendo.
Faria celebrou mesmo, despachei o essencial na sala de imprensa e subi à tribuna do Court Phillippe-Chatrier para assistir a uns breves minutos do que restava do encontro de Jannik Sinner. Vi-o segurar o serviço para liderar por 6-3, 6-2, 5-1 e segui o caminho inverso, a 32.ª vitória provavelmente chegaria enquanto descia os quatro lances de escadas com duas entrevistas para preparar. Sentei-me, o burburinho fez-me olhar para um dos ecrãs da sala de imprensa e o italiano estava pálido.
A segunda fase do Surrealismo chegou. Enquanto, a 100 metros, Kouamé jogava pela primeira vez um quinto set e era empurrado por um ambiente cada vez mais efervescente, o número um mundial imbatível nos tempos que correm mostrava ser, afinal, humano. Jaime Faria falou, adiei a transcrição e voltei ao Court Philippe-Chatrier.
Um autêntico choque. A surpresa do século. Um golpe de teatro. São várias as formas de descrever o que aconteceu esta quinta-feira na catedral da terra batida, onde o único favorito vomitou, rastejou e quase desmaiou. À porta da vitória, Sinner sucumbiu. Mais tarde, teria centenas de jornalistas à frente enquanto explicava, calmamente, o quão mal se sentiu ainda antes de ir a jogo. Nunca vi uma sala de conferências de imprensa tão cheia, não sei se alguma vez voltarei a ver.
Afinal, o inferno existe mesmo e Jannik Sinner visitou-o esta quinta-feira.

Já Mouise Kouamé atravessou a porta do lado e chegou ao céu, dois extremos uma vez mais tão bem patentes neste desporto feito de desastres e glórias.
Quase por milagre, entrei no Court Suzanne-Lenglen a tempo de assistir ao tie-break decisivo. É difícil fazer justiça a um momento destes em Roland-Garros quando joga um gaulês, tal é a festa. O ténis passa para segundo plano, os cânticos e gritos tomam conta da ocasião e o encontro transforma-se numa batalha pela sobrevivência.
Kouameé revelou uma compostura rara num adolescente, resistiu mesmo quando a esquerda — que esquerda! — e os amorties o traíram no tira-teimas e não deixou fugir a história.
Tornou-se no quinto homem mais novo da Era Open a alcançar a terceira ronda em Roland-Garros e no mais novo a chegar tão longe num torneio do Grand Slam desde Rafael Nadal em Wimbledon 2003.
São 17 anos, 2 meses e 22 dias.
É Moïse Kouamé.
Na semana em que Gael Monfils disse adeus a Roland-Garros, acabando com a história da segunda geração de mosqueteiros, o ténis francês ganhou um novo herói. Como precisava a França de um herói. E como precisava Roland-Garros de algo assim.
If you can meet with Triumph and Disaster, and treat those two imposters just the same… — Rudyard Kipling