De Jaroslav Drobny a Martina Navratilova, de Jana Novotna a Petra Kvitova, de Marketa Vondrousova e Barbora Krejcikova até às recentes finalistas Karolina Muchova e Linda Noskova: a extraordinária história de amor entre Wimbledon e o ténis checo merece ser contada e pode mesmo ter salvo o ténis português.
Por Miguel Seabra, em Wimbledon
Está naquela altura do ano de regressar a uma temática paulatinamente glosada aqui no Raquetc na ponta final da quinzena wimbledoniana, nomeadamente em 2023 e 2024 — e de escalpelizar as razões porque a relva parece falar a língua de um pequeno país da Europa Central. Talvez Portugal possa aproveitar as conclusões, mas o certo é que já beneficiou da qualidade do ténis checo através da mais incrível das razões…
No escaldante período político pós-25 de abril, o país virou muito à esquerda e o ténis foi encarado como desporto capitalista a evitar. A tal ponto que se chegou a considerar transformar os courts do Estádio Nacional em campos multiuso de basquete/andebol/voleibol. Rezam as crónicas que surgiu então a revelação de que também no leste europeu de regime comunista se apostava em ténis, nomeadamente na então Checoslováquia — que tinha já na altura campeões de títulos do Grand Slam, como Jaroslav Drobny e Jan Kodes (que ganhou Wimbledon em 1973 e esteve na Royal Box para ver o cheque-mate da final feminina). A Checoslováquia, a Jugoslávia e a Hungria eram exceções do outro lado da Cortina de Ferro; na altura, a política desportiva do Bloco de Leste estava ao serviço dos regimes sob a égide da União Soviética e sobretudo centrada nos desportos olímpicos que davam medalhas… como o ténis estava fora do catálogo olímpico, ‘não interessava’ e até era denunciado como desporto dos ricos.
O ténis só regressou aos Jogos Olímpicos em 1984, como modalidade de exibição, e em 1988, finalmente como integrante das modalidades oficiais; foi isso que fez com que a União Soviética se abrisse finalmente ao ténis profissional (mesmo que tivesse tido ocasionalmente jogadores em finais do Grand Slam na ‘era amadora’, como Alex Metreveli e Olga Morozova), com uma primeira vaga de jogadores que incluiu o pai de Alexander Zverev. E, em Portugal, o complexo de ténis do Jamor, que tem sido a sala de visitas do ténis português desde os anos 40, pôde manter os seus courts de terra batida… um pouco graças à fama do ténis checo. Sem esquecer a contratação de Jan Soukup como diretor-técnico nacional no início da década de 90, quando o ténis já começava a ser considerada uma profissão em Portugal para muita gente — não só jogadores, mas também árbitros e toda uma economia que o advento do Estoril Open gerou a partir de 1990. Já agora, a primeira medalha de ouro olímpica dos tempos modernos foi conquistada, em Seul (1988), por um checoslovaco: Miloslav Mecir, que depois se tornaria capitão da seleção da Taça Davis eslovaca a partir da divisão do seu país.
Mas o lado Chéquio da antiga Checoslováquia foi sempre o que teve mais raízes tenísticas. E a popularidade da modalidade das raquetas por essas paragens do leste Europeu continua a dar frutos, em virtude de uma política desportiva extremamente interessante e de uma notável bola de neve que tem tido impressionantes repercussões curriculares ao longo da presente década em Wimbledon. E se há tradições que se explicam através dos números e outras exigem uma viagem pela história, o extraordinário sucesso do ténis checo na relva pertence às duas categorias. Basta olhar para a galeria de honra do All England Club para perceber que poucos países exerceram uma influência tão profunda sobre o mais prestigiado torneio do mundo. E se olharmos um pouco mais fundo, confirma-se que essa história não começou com Petra Kvitova na década passada, nem com Jana Novotna nos anos 90 e nem sequer com Martina Navratilova a partir de 1978. Começou bem antes da República Checa existir enquanto estado independente e atravessou as referidas mudanças de fronteiras, regimes políticos, emigrações e naturalizações sem nunca perder continuidade.
Educação
A edição de 2026 voltou a demonstrá-lo de forma quase simbólica. Linda Noskova e Karolina Muchova garantiram um título antecipado para a República Checa antes mesmo de jogarem a final — que acabou por ser uma muito interessante final em três sets e três atos que não coincidiram com as três partidas: o primeiro que pôs Noskova a liderar por 6-2, 5-2, o segundo que fez Muchova ganhar cinco jogos consecutivos e salvar cinco match-points para forçar um último set, e o terceiro com a retoma de Noskova para selar o triunfo. A presença de duas finalistas checas na Catedral do Ténis impressiona por si só, mas ganha outra dimensão quando colocado em perspetiva: depois dos triunfos de Marketa Vondrousova em 2023 e Barbora Krejcikova em 2024, Wimbledon voltou a confirmar que, usando um trocadalho, as checas têm mesmo cobertura na relva do All England Club!

Já escrevi sobre o tema em 2023 e em 2024, na análise ao triunfo de ambas. Obviamente que, com duas representantes na final, o ténis checo foi ainda mais escrutinado este ano. Nas conferências de imprensa após as meias-finais, tanto Noskova como Muchova recusaram a ideia de qualquer fórmula mágica. Ambas falaram da profundidade do ténis feminino checo, da influência das gerações anteriores e da importância de crescer num ambiente onde chegar às fases decisivas dos grandes torneios deixou de ser uma exceção para passar a ser uma expectativa natural. Sugeriram que o sucesso não nasce de um segredo escondido, mas de uma cultura competitiva construída ao longo de décadas.
Desta vez, procurei uma abalizada opinião fora do contexto checo e fui falar com um velho amigo holandês: o categorizado técnico Sven Gronefeld, que já treinou muitas das melhores tenistas das últimas três décadas e também alguns bons tenistas. É o atual treinador da excelente Karolina Muchova e começou por me relembrar que deixou de falar oficialmente para a imprensa há 15 anos, porque não está no ténis para ser uma figura mediática e porque não quer ver alguém que esteja a treinar confrontar-se com declarações dele na imprensa que têm grandes hipóteses de não serem literais ou mesmo saírem adulteradas. Mas conversámos sobre o tema e ele colocou o acento numa tónica muito especial: a educação. E não se trata de educação desportiva; Sven Gronefeld quis destacar a educação global que recebem desde muito jovens e sublinhou que as jogadoras checas são todas excelentes pessoas, antes de serem excelentes tenistas. São bem formadas. Viu-se isso durante a final e logo depois da final, nos emocionantes discursos de ambas.
História
Durante muito tempo, quando se falava da ligação entre a antiga Checoslováquia e Wimbledon, o primeiro nome que surgia era o de Jaroslav Drobny. A sua carreira espelha como poucas a complexidade política da Europa do pós-guerra. Nascido em Praga, tornou-se um dos melhores jogadores do mundo ainda sob as cores da Checoslováquia, mas acabaria por abandonar o país depois da implantação do regime comunista. Naturalizou-se egípcio e foi já a representar o Egito que conquistou Wimbledon em 1954, depois de também ter sido finalista em 1949 e 1952. Oficialmente, Jaroslav Drobny é o primeiro jogador do continente africano a ganhar um título do Grand Slam. Historicamente, representa um capítulo essencial da tradição tenística checa.
O mesmo raciocínio aplica-se, de forma ainda mais evidente, a Martina Navratilova. Nascida em Praga, formada na escola checoslovaca e posteriormente naturalizada norte-americana, transformou-se na maior campeã da história de Wimbledon. As suas nove vitórias em singulares foram conquistadas após a sua deserção para os Estados Unidos (foi então apagada dos registos e palmarés no seu país), mas ainda surge como checa nas duas primeiras das nove vitórias que alcançou no Centre Court. E ninguém consegue contar a história do ténis checo sem a colocar no centro da narrativa. O seu serviço-vólei, a extraordinária preparação física e a agressividade permanente marcaram a forma de jogar na relva e redefiniram aquilo que significava dominar Wimbledon.

É precisamente aqui que importa fazer uma distinção que frequentemente passa despercebida. A final entre Muchova e Noskova constitui a primeira final feminina de Wimbledon entre duas representantes da República Checa. Mas não é a primeira final disputada por duas mulheres nascidas nas atuais terras checas. Em 1986, Martina Navratilova, já norte-americana, derrotou Hana Mandlíkova, ainda representante da Checoslováquia e futuramente australiana. Ambas nasceram em Praga. A diferença entre nacionalidade desportiva e origem geográfica ajuda a compreender porque a influência checa em Wimbledon é ainda maior do que sugerem os registos oficiais. Porque, ao longo de quase um século, Wimbledon conheceu várias formas de excelência checa.
Por exemplo, Jaroslav Drobny representava a elegância clássica do pós-guerra. Jan Kodes trouxe consistência e inteligência tática, conquistando o título masculino na conturbada edição de 1973 que foi marcada pelo boicote de grande parte dos jogadores do top 100 (descontentes com o tratamento dado pela Federação Internacional de ténis ao jugoslavo Nikki Pilic). Ivan Lendl nunca conseguiu vencer Wimbledon, mas alcançou duas finais consecutivas, em 1986 e 1987, confirmando que o então número um mundial também era capaz de adaptar o seu ténis metódico à superfície mais diferenciada do circuito. Tomas Berdych recuperaria a tradição masculina ao atingir a final de 2010, derrotando Roger Federer pelo caminho antes de sucumbir perante Rafael Nadal.
Nas mulheres, a continuidade impressiona ainda mais. Jana Novotna transformou uma das derrotas mais dolorosas da história moderna do torneio numa das mais belas histórias de redenção do desporto. Depois das lágrimas no ombro da Duquesa de Kent após a final de 1993 frente a Steffi Graf, regressou repetidamente ao Centre Court até finalmente conquistar o título em 1998… um ano depois de Martina Hingis, suíça mas formada pela mãe checoslovaca que a batizou em nome da sua antiga rival Martina Navratilova, se ter tornado na mais jovem campeã. Petra Kvitova, talvez a jogadora mais naturalmente vocacionada para a relva da sua geração, conquistou Wimbledon em 2011 e 2014 graças à combinação de um serviço poderoso, uma direita de esquerdina devastadora e uma capacidade invulgar para retirar tempo às adversárias. Na presente década, e após a final perdida por Karolina Pliskova em 2021, Marketa Vondrousova e Barbora Krejcikova demonstraram que a tradição estava longe de terminar. A primeira conquistou Wimbledon em 2023 com um ténis de enorme criatividade e inteligência tática a partir do seu estilo de esquerdina; a segunda confirmou, no ano seguinte, que a escola checa continuava capaz de produzir campeãs muito diferentes entre si, mas igualmente completas. Muchova e Noskova prolongam essa linhagem.
Talvez seja precisamente essa diversidade o segredo mais bem guardado do ténis checo. Ao contrário de outros países que parecem produzir sucessivas gerações moldadas segundo um único modelo, a República Checa habituou-se a formar jogadoras profundamente distintas mas de grande competência técnica. Navratilova dominava através do ataque constante; Novotna encantava com a elegância junto à rede; Kvitova impunha-se pela potência; Vondrousova recorreu à imaginação; Krejcikova implementou as nuances do jogo de pares para os singulares; Muchova faz da variedade uma forma de arte; Noskova alia agressividade a uma impressionante maturidade competitiva. O denominador comum não está na forma de jogar, está na forma de aprender. Ou seja, na educação… como me disse Sven Gronefeld.

Sistema
A resposta para o fenómeno checo não se encontra apenas nos resultados de singulares; há ainda a considerar os inúmeros títulos do Grand Slam em pares e no escalão júnior — para além dos títulos por seleções na Taça Davis e sobretudo na Billie Jean King Cup. A resposta encontra-se sobretudo no sistema que continua a produzi-las. Ao contrário de outras potências do ténis mundial, a República Checa nunca dispôs dos recursos económicos dos Estados Unidos, da dimensão demográfica da Rússia, da capacidade de investimento de alguns dos grandes programas asiáticos ou da longa tradição das nações que dispõem de torneios do Grand Slam e de alguns países com excelentes condições meteorológicas (como a Espanha ou a Itália). Em compensação, construiu ao longo de décadas uma cultura de formação extraordinariamente consistente, onde a prioridade nunca foi fabricar atletas iguais, mas ensinar cada jogadora a pensar o jogo.
Essa tradição remonta ainda ao período da antiga Checoslováquia. Durante décadas, o ténis foi uma modalidade valorizada dentro do sistema desportivo do país e desenvolveu uma escola técnica reconhecida muito para além das suas fronteiras. Mesmo depois da transição política do início da década de 1990, muitos dos treinadores permaneceram ativos, assegurando uma continuidade metodológica rara no desporto de alto rendimento. As instituições mudaram, os clubes reorganizaram-se, as condições económicas transformaram-se profundamente, mas a transmissão de conhecimento nunca foi interrompida.
É um pormenor frequentemente esquecido quando se fala do sucesso recente das jogadoras checas. A República Checa não começou a ganhar Wimbledon no século XXI. Herdou um património técnico acumulado durante gerações. Os treinadores que acompanharam Petra Kvitova tinham aprendido com uma geração anterior; muitos dos que hoje trabalham no circuito cresceram profissionalmente a observar o percurso de Jana Novotna, Hana Mandlikova ou Martina Navratilova. O conhecimento foi passando de treinador para treinador com uma continuidade quase artesanal. Talvez por isso seja tão difícil identificar um único estilo checo. Ao contrário da escola espanhola, durante muitos anos associada à terra batida, ou da tradição norte-americana do serviço dominante, a República Checa nunca produziu jogadoras em série: produziu individualidades.
Não existe um molde comum. Existe uma cultura comum. E é precisamente essa cultura que explica por que razão tantas jogadoras checas parecem sentir-se particularmente confortáveis em Wimbledon. Embora cresçam maioritariamente sobre terra batida e hardcourts, chegam à relva com um repertório técnico muito mais vasto do que o da maioria das adversárias. Sabem variar os efeitos, jogar em força, cortar o ritmo, utilizar o slice, subir à rede quando a oportunidade surge e improvisar soluções que escapam aos padrões mais mecanizados do ténis de aviário contemporâneo. Wimbledon e a relva continuam a recompensar esse tipo de inteligência. Viu-se isso na final do sábado passado.
Identidade
Há também um fator psicológico que não deve ser subestimado. Em muitos países, vencer Wimbledon é um sonho distante, quase mítico. Na República Checa, é uma possibilidade concreta. Quando uma jovem entra num clube em Praga, Brno, Ostrava ou Prostejov, cresce rodeada por fotografias, histórias e exemplos de jogadoras que já venceram no All England Club. Ou é treinada por técnicos associados a grandes triunfos. O objetivo deixa de parecer extraordinário; passa a integrar a própria identidade competitiva.
Nas declarações após as meias-finais, e fiz a ambas perguntas sobre o sucesso do ténis checo, tanto Karolína Muchova como Linda Noskova veicularam precisamente a essa ideia. Nenhuma delas falou de genética, nem de qualquer fórmula secreta. Preferiram destacar o ambiente competitivo existente no país, a qualidade das jogadoras com quem cresceram, a influência exercida por campeãs como Petra Kvitova (que veio para assistir à final feminina na Royal Box, ao lado de Martina Navratilova e de Jan Kodes) e a convicção de que chegar longe em Wimbledon não constitui uma exceção, mas uma consequência natural de um sistema que continua a produzir talento de forma quase contínua.
Esse talvez seja o maior legado da escola checa. Não consiste apenas em acumular troféus. Consiste em criar uma sucessão de gerações que se inspiram mutuamente. Navratilova abriu horizontes que pareceriam impossíveis. Novotna ensinou o valor da persistência. Kvitova devolveu a República Checa ao topo do torneio. Vondrousova e Krejcikova provaram que essa tradição permanecia viva. Muchova e sobretudo Noskova pertencem já a uma nova geração que cresceu olhando para essas campeãs como modelos perfeitamente alcançáveis.
A história do ténis está repleta de dinastias efémeras. Países que dominaram durante uma década desapareceram rapidamente do mapa competitivo. A República Checa constitui uma exceção notável. Ao longo de mais de setenta anos, diferentes gerações encontraram sempre forma de regressar ao Centre Court no último fim de semana do torneio. Mudaram as raquetas, evoluíram as bolas, alterou-se a velocidade da relva e o próprio jogo tornou-se muito mais físico. A presença checa, porém, permaneceu. Talvez porque Wimbledon continue a premiar aquilo que sempre distinguiu os melhores jogadores formados na tradição checa: excelência técnica, inteligência tática, predisposição ofensiva, coragem para variar e uma profunda compreensão do jogo. Qualidades que não dependem da moda nem da velocidade da superfície.
Quando Muchova e Noskova entraram no Centre Court para disputar a final de 2026, levavam consigo muito mais do que as expectativas de um pequeno país da Europa Central. Transportavam uma herança, não estavam apenas a disputar um título de Wimbledon. Estavam a acrescentar mais um capítulo a uma das mais extraordinárias histórias de continuidade que o ténis mundial conheceu. E talvez seja precisamente isso que torna a relação entre Wimbledon e a República Checa tão fascinante, com a final deste ano a reforçar essa saga devido aos contornos dramáticos de que se revestiu.
Os campeões mudam. As gerações sucedem-se. Os estilos evoluem. Mas, de alguma forma, quando chega julho e a relva do All England Club volta a decidir quem entra para a história, há sempre um sotaque checo. Veremos se vai voltar a fazer-se ouvir no próximo ano… e se há um novo cheque-mate no Centre Court.