A noite inesquecível de Jaime Faria a 40 metros de distância

Jaime Faria nunca tinha atuado no maior estádio do mundo e quem deste lado o noticiou nunca tinha ficado a 40 metros do court estando dentro do court. O Arthur Ashe Stadium é uma experiência sensorial sem igual no universo tenístico, distinguindo-se dos seus pares exatamente como a América o desejou.

Por Gaspar Ribeiro Lança, em Nova Iorque

Em jogo estava a melhor vitória da história do ténis português (Michelle Larcher de Brito que me perdoe) e o sonho americano chegou a ser nosso. O destemido Jaime Faria fez jus à sua personalidade e começou por exibir-se de igual para igual com Carlos Alcaraz, ousando até ganhar-lhe um set antes do campeão em título reencarnar na sua melhor versão e castigá-lo sem piedade pelas falhas de mortal.

Durante 45 minutos, quem não soubesse não diria que esta era a estreia de um jovem quase anónimo de 23 anos — já lá vamos — no maior palco do ténis. Eu próprio, tão habituado a vê-lo competir nos mais variados palcos e de todas as formas há mais de seis anos, fiquei surpreendido. Sobretudo por acontecer aqui.

O Arthur Ashe Stadium é descrito como o maior court de ténis do mundo, mas não é a dimensão sem igual que o torna num monstro difícil de domar. Nele, tudo foge às raízes do desporto que o tornou popular. Mais do que os 23.771 lugares, é o ADN do US Open que entra em jogo.

Este ano, a USTA aboliu os lugares de imprensa próximos da área de jogo e recambiou os jornalistas para um dos anéis superiores. Entre alguma pesquisa e cálculos com recurso a aplicações no iPhone, estive sentado a cerca de 23 metros de altura e a 40 metros do centro do court em linha reta, uma distância impensável na maioria dos courts construídos por este mundo fora, mas que aqui ainda é superada pela última — e enorme — secção de público.

Poderia escrever todo um outro texto sobre o atraso do US Open em relação aos Grand Slams europeus no tratamento aos jornalistas, começando pelos media seats sem eletricidade e continuando pela sala de imprensa suja e antiga, não deixando de parte uma sensação de distância e até uma certa incompetência (a equipa que apoia a ATP e a WTA na gestão jogadores-imprensa deixou escapar Nuno Borges quando pedi para o entrevistar). Mas continuo a sentir-me um sortudo por estar em Nova Iorque e a experiência sobrepõe-se a estes obstáculos, pelo que basta um parágrafo.

Foi desses 40 metros até ao retângulo azul e verde onde Faria e Alcaraz duelavam que me questionei sobre as suas capacidades de processar e combater todas as sensações novas. Tive dificuldades em desafiar os limites do corpo humano para manter a concentração, porque quanto maior a distância maior o barulho dentro do Arthur Ashe Stadium, que, como Nova Iorque, não dorme e não pára. O público movimenta-se, o público fala, o público tira fotografias.

Tudo isto para dizer que há muito mais do que ténis a acontecer e o Arthur Ashe Stadium reflete isso mesmo. O aumento do barulho no court — audível, até, na televisão — tem sido um dos aspetos mais criticados ao longo da última década e em particular desde o início desta edição e sente-se, como esperava, lá em baixo.

No final, questionei Jaime Faria sobre o assunto e confirmou-me, com um sorriso amargo, todas as sensações: “É verdade, não conseguia ouvir muito bem a bola. Utilizo muito o som para perceber com que velocidade é que a bola sai da raqueta e no início estava a sentir mitas dificuldades em responder por causa disso, não conseguia perceber. É estranho, porque não me ouço a jogar e ouvir-me dá-me energia. Também não é fácil falar com o treinador e o público tem momentos em que é a loucura e outros em que está toda a gente a falar. É um pouco triste nesse aspeto, porque acho que o ténis deve jogar-se em silêncio e se compararmos com os outros torneios do Grand Slam é totalmente diferente.”

O lugar onde todos querem estar e que poucos conseguem pisar é diferente de todos os outros.

Para o bem e para o mal, esta é a identidade do US Open. Cada torneio do Grand Slam tem a sua e este vive do show off. Tal como a cidade que o alimenta, é um torneio que não dorme e que se orgulha, sobretudo, da grandeza. Go big or go home, tanto dizem os americanos, e ao longo das últimas cinco décadas a missão concretizou-se.

A procura incessante por mais fez deste um torneio para as massas, mas o US Open continua a querer mais. Torná-lo na “Disneyland do ténis” é um objetivo assumido por Craig Tiley, que começou o ano como responsável pela Tennis Australia e o acaba já no novo posto, a mesma função agora nos EUA.

Recentemente, o US Open transcendeu os limites do ténis e até do desporto, tornando-se num evento que todos querem visitar pelas mais variadíssimas razões. Para várias centenas, senão milhares de espetadores, os atores são secundários e até desconhecidos. A transformação é potenciada pela aposta em influencers (mais de 100 estão acreditados pelo torneio, além dos que as marcas atraem), uma decisão que, tratando-se de Nova Iorque, é levada ao extremo. Bastou um dia de torneio para surgirem queixas relacionadas com focos de luz acesos nas bancadas durante os pontos e demasiadas sessões fotográficas durante os pontos. 

E a obsessão não acaba. Em 2027, apresentará o seu ex-libris de cara renovada, como resultado de um investimento no Arthur Ashe Stadium que será o full circle de uma história iniciada em 1978, quando deixou o elitista e privado West Side Tennis Club, em Forest Hills, e se mudou para o então novo USTA National Tennis Center, em Flushing Meadows. Quase meio século depois, a ambição continua a ser a mesma: mais, mais, mais.

Mas tem um preço.

Um grounds pass (bilhete de recinto) vendido originalmente por 65 dólares chegou rapidamente aos 300 dólares no mercado secundário, números superados em larga escala quando se tratam de lugares no Louis Armstrong Stadium e sobretudo no Arthur Ashe Stadium. Ultrapassados os portões, os valores acompanham a dimensão do evento, mas nada trava a procura.

Pelo contrário: quanto mais pessoas querem entrar, mais o torneio consegue cobrar a quem não quer ficar de fora. A lei da procura e da oferta no seu esplendor, ou não estivéssemos a falar da América. 

Mas a USTA é uma organização sem fins lucrativos cuja missão passa por fazer crescer o ténis e inspirar comunidades mais saudáveis e os responsáveis reconhecem, com alguma timidez, a contradição que têm em mãos, apontando como fundamental que as crianças continuem a conseguir chegar ao torneio para verem de perto os melhores do mundo e alimentarem o sonho de, um dia, estarem do outro lado.

Será cada vez mais difícil fazê-lo enquanto o sucesso continuar a ser medido pela capacidade de transformar uma ida ao US Open numa experiência viral. Democratizar o alcance e o acesso ao evento não é a mesma coisa e os 800 milhões que darão cara lavada ao Arthur Ashe Stadium comprometem ainda mais o segundo objetivo, pois além das pinturas e obras superficiais (mas necessárias) estará, sobretudo, um aumento da oferta de lugares premium e espaços de luxo. Surpreendente? Nem por isso.

No fundo, foi uma missão bem-sucedida, que como todas tem o seu prejuízo: o US Open foi tão eficaz a sair de Forest Hills para chegar a mais público que agora precisa de descobrir como não deixá-lo para trás. Afinal, ainda é um torneio de ténis. 

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