Wimbledon, Dia 4: A repetição. O choque. A glória e o adeus.

O inesperado aconteceu. Outra vez. Ao quarto dia de ação nos courts relvados do All England Club, Rafael Nadal saiu de cena em Wimbledon, um torneio onde em tempos disputou e venceu aquele que é considerado por muitos como o melhor encontro de ténis da história. Se o dia começou com os tão típicos chuviscos de Londres, acabou ‘em altas’, com o Centre Court ao rubro a fechar um dia de bons duelos.

Se há algo que Dustin Brown promete antes de entrar em campo para disputar qualquer tipo de encontro oficial é ‘dar espetáculo’ e esta quinta-feira o alemão de origem jamaicana não fugiu à regra. Conhecido pela sua atitude descontraída e, já dentro do campo, pelo rápido e cativante estilo de jogo ofensivo, a fazer lembrar os primórdios da época de relva, o número 102 mundial apresentou-se descontraído, muito descontraído no principal court do recinto britânico e, depois de quatro convincentes partidas e muita luta, conseguiu mesmo a surpresa: 7-5 3-6 6-4 6-3 sobre o agora número dez mundial.

Já o terceiro set estava a terminar e as estatísticas registavam que Brown executava todas — não várias, não muitas, mas todas — as pancadas à frente da linha de fundo nos seus jogos do serviço, como consequência da sua constante busca de um ténis ofensivo muito baseado em variações de ângulo, velocidade e, claro, frequentes subidas à rede. Pois bem, pelo quarto ano consecutivo Nadal voltou a não ter resposta para um adversário menos cotado (Lukas Rosol [#100] em 2012, Steve Darcis [#135] em 2013, Nick Kyrgios [#144])…) e viu-se sem hipótese de recuperar. A cada jogo decorrido, Dustin Brown ganhava mais confiança, mais vantagem no marcador, mais ascendência no capítulo mental.

Se em Halle, na última temporada, a vitória já havia sorrido a Brown, em Wimbledon o ‘sabor é outro’. A disputar pela primeira vez um encontro no court mais carismático do mundo, Dustin, que no final do embate revelou “ter ‘sorte’ por jogar contra ele na minha melhor superfície; não queria jogar contra ele em mais nenhum lado” ganhou os sorrisos do público assim que começou a disputar o embate, ‘graças’ à sua aptidão para um ténis rápido, cativante e, quando afinado, muito eficaz. “Sem nada a perder” e vindo de “uma família sem background no ténis”, Dustin Brown volta assim, aos 30 anos de idade, a apurar-se para a terceira ronda de um torneio do Grand Slam, dois anos depois de o ter conseguido precisamente na relva britânica.

A história pede números e aqui ficam mais alguns:

  • Até hoje, Dustin Brown tinha um registo de 0 vitórias e 5 derrotas em encontros frente a cabeças de série em torneios do Grand Slam.
  • Pela primeira vez na carreira, Rafael Nadal perdeu um encontro frente a um tenista da fase de qualificação em eventos Major. O espanhol somava 20 vitórias em outros tantos jogos.

Faz-se história com british accent e anseia-se por mais

Muito antes de Brown erguer os braços e celebrar a melhor vitória da sua carreira perante um Centre Court lotado já o ténis britânico celebrava. É que hoje, pela primeira vez desde 2002, dois tenistas ‘da casa’ garantiram a presença na terceira ronda do quadro principal de singulares masculinos. Um deles, Andy Murray, de forma esperada, ao triunfar facilmente peante Robin Haase por 6-1 6-1 6-4; o outro, James Ward, com uma pitada maior de surpresa e igual celebração: em quatro sets, no também ‘esgotado’ Court No. 2, o britânico derrotou Jiri Vesely, pelos parciais de 6-2 7-6(4) 3-6 6-3. Está na terceira ronda pela primeira vez.

Igualmente vitoriosas foram as prestações de Roger Federer, heptacampeão em Wimbledon e que tem como objetivo para esta temporada voltar a vencer na relva, e de Tomas Berdych. Se o suíço arrasou o norte-americano Sam Querrey, por 6-4 6-2 6-2, num jogo de sentido único e em que conseguiu fazer ‘coisas’ como esta, o checo não passou muito mais tempo em campo, dado que perdeu apenas nove jogos (6-1 6-4 6-4) rumo à sua vitória sobre o francês Nicolas Mahut, protagonista da épica batalha com John Isner há meia década.

Nadal desiludiu, sim, mas o mesmo se pode dizer do seu compatriota Feliciano Lopez — também ele confirmado como ausente da próxima eliminatória da Espanha na Taça Davis — que não teve armas suficientes para aguentar o poderio e atrevimento do qualifier Nikoloz Basilashvili, da Geórgia e número #153 mundial, que depois de 2h56 em campo triunfou por 7-5 3-6 6-3 2-6 6-4.

Jornada feminina esteve longe de ser dia de ‘tomba-gigantes’

Petra Kvitova, Sabine Lisicki, Agnieszka Radwanska e Caroline Wozniacki. Todas elas finalistas de torneios do Grand Slam (no caso da primeira, bicampeão), todas elas apuradas para a terceira eliminatória de Wimbledon com relativa facilidade. A jornada desta quinta-feira não ofereceu muita resistência às principais candidatas ao título; houve ainda tempo e espaço para se confirmar uma estreia.

Campeã em 2011 e 2014, a checa Petra Kvitova parece determinada em não perder tempo (e jogos) se na primeira eliminatória cedeu apenas um, hoje a quantia aumentou para dois, mas apenas dois, e 57 minutos de jogo ao invés de 34. A ‘vítima’ foi a japonesa Kurumi Nara, que esteve longe de conseguir contrariar o poderio da adversária. Em igual forma e eficácia esteve a polaca Radwanska, ex-finalista da prova, que apesar de ter perdido o mesmo número de jogos (0-6 2-6 para Alja Tomljanovic) até esteve nove minutos a menos em campo.

De resto, também a dinamarquesa Wozniacki, quinta cabeça de série, conseguiu seguir em frente, ao vencer a checa Denisa Allertova por 6-1 7-6(6) para continuar em busca dos únicos quartos-de-final em torneios Major onde ainda não marcou presença. Lisicki, a finalista de 2011, acabou por ter um pouco mais de trabalho e teve mesmo de ir a um terceiro set ((2-6 7-5 1-6) para se ver livre de Christina McHale. A grande surpresa do dia acabou mesmo por ser a inédita passagem de Tatjana Maria à terceira ronda de um torneio do Grand Slam. Aos 27 anos, a alemã derrotou Ying-Ying Duan, da China, por (insólitos) 1-6 6-2 10-8.

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