Há instituições no ténis que não aparecem no calendário, não têm rankings, nem oferecem pontos. Vivem noutro plano — o da memória organizada, da pertença discreta e da continuidade simbólica. O Last 8 Club de Wimbledon pertence a esse território raro. Não é um clube no sentido social convencional, nem uma associação celebratória ao estilo das confraternizações pós-carreira. É, antes, uma forma de arquivar a história viva dos Championships através daqueles que, em momentos diferentes, chegaram ao mesmo limiar: os quartos de final.
O Last 8 Club é conhecido nos meandros da modalidade, especialmente entre os mais familiarizados com a história de Wimbledon. Eu sabia que existia, mas achava que era apenas um conceito e que um crachá na lapela bastava. Fiquei a saber que é também um espaço físico graças ao meu amigo Chris Lewis, o finalista de 1983 — ganhou uma titânica meia-final em cinco sets diante de Kevin Curren, ficou famoso por receber uma chamada telefónica do primeiro-ministro neozelandês durante a conferência de imprensa e depois cedeu no derradeiro encontro diante de um John McEnroe no auge da sua arte ofensiva. Antes, tinha sido campeão júnior de Wimbledon e número um mundial de sub-18; depois, foi treinador de vários jogadores de destaque, incluindo o campeoníssimo Ivan Lendl (a quem acompanhou na sua participação no Estoril Open em 1992). É um profundo conhecedor da modalidade, casou com uma modelo, tem uma filha que é uma violinista genial, fundou uma academia na Califórnia e é, sobretudo, um tipo impecável.
Encontro-me com o Chris Lewis todos os anos em Wimbledon (há três anos muito trabalhei eu para o reunir com John McEnroe e conseguir uma foto reminiscente da que tiraram antes da final entre ambos em 1983!) e aproveitamos sempre para pôr a conversa em dia; por acaso, mencionou-se o Last 8 Club e ele perguntou-me se eu queria lá ir. Quase soltei um flato… claro que sim! E fomos. Para minha surpresa, é uma sala escondida perto do portão 5 do All England Club que nunca me apercebi que existia; reencontrei lá o John-Laffnie de Jager, que cheguei a arbitrar em circuitos satélite no Algarve e depois foi capitão da seleção da Taça Davis da África do Sul, e seguidamente o Chris apresentou-me a alguém que é o responsável do Last 8 Club e que me parecia vagamente familiar… quando o nome John Feaver veio à baila, disse-lhe que nos tínhamos encontrado exatamente há 20 anos, numa vanette de transporte entre o aeroporto de Xangai e o hotel oficial da Masters Cup (hoje ATP Finals) de 2006, e voltámos a falar do recorde que ele teve durante várias décadas até ser batido por Goran Ivanisevic: o de mais ases num encontro, 42!, «diante do John Newcombe e com uma Maxply Fort de madeira», precisou. Perguntou-me pelo João Lagos e tirámos uma fotografia para lhe enviar.
John Feaver disse-me que «o que se passa no Last 8 Club não sai do Last Eight Club», mas não estou a cometer qualquer inconfidência. A sua criação remonta a 1986, ano em que Wimbledon assinalava a edição centenária do torneio (que começou a jogar-se em 1877, mas teve paragens por ocasião das duas Guerras Mundiais). A ideia não surgiu como um gesto burocrático, mas como uma extensão natural da consciência histórica que então se intensificou no All England Lawn Tennis and Croquet Club. O torneio, já então a mais ritualizada das provas do Grand Slam, procurava formas de celebrar não apenas os campeões, mas todos os que tinham contribuído para a sua narrativa competitiva. Nesse contexto, a noção de um clube que reunisse os ‘últimos oito’ de cada edição dos Championships emergiu como uma solução elegante: simples na definição, mas profunda na implicação simbólica.
O princípio é quase austero na sua clareza. Qualificam-se automaticamente para o Last 8 Club todos os jogadores que tenham atingido os quartos de final de singulares de Wimbledon, bem como os semifinalistas de pares e os finalistas de pares mistos. No total, há 710 membros — entre jogadores ativos e retirados. Não há candidatura, não há processo seletivo, não há distinção hierárquica entre eras. Um quarto-finalista de 1925 tem o mesmo estatuto de um quarto-finalista de 2025. A lógica é horizontal, quase democrática, mas filtrada por um critério de excelência desportivo absoluto.
A génese da ideia é frequentemente associada a Reginald ‘Buzzer’ Hadingham, figura discreta mas influente na estrutura social de Wimbledon, com ligações profundas ao tecido institucional do torneio. Foi ele quem formalizou o conceito no contexto das celebrações do centenário, inspirado por uma conversa com Wilhelm Bungert, antigo finalista alemão de Wimbledon. Bungert terá sugerido a criação de uma espécie de ‘irmandade dos últimos oito’, uma forma de manter vivos os laços entre jogadores cuja experiência em Wimbledon os colocava num patamar comum, ainda que separados por décadas.
O All England Club acolheu a ideia com uma combinação típica de pragmatismo e sensibilidade histórica. Wimbledon sempre soube preservar a sua aura sem parecer excessivamente auto-referencial. O Last 8 Club encaixava nesse equilíbrio: suficientemente exclusivo para ter significado, suficientemente inclusivo para abranger a vasta geografia temporal do torneio.
Desde o início, o ‘Clube dos Últimos 8’ foi concebido menos como uma entidade ativa e mais como uma rede de reconhecimento. Os membros não são ‘membros’ no sentido operativo — não pagam quotas por uma experiência social regular, nem participam em reuniões estruturadas. Em vez disso, recebem uma forma de reconhecimento institucional que se materializa sobretudo durante o torneio: acesso a espaços específicos, convites para eventos durante as duas semanas de Wimbledon e, sobretudo, a integração num grupo que funciona como uma extensão da própria história da competição em si.
Os membros têm entrada vitalícia garantida no Last 8 Club, bem como um passe para si e um convidado, válido durante todo o torneio. As vantagens incluem ainda uma happy hour às 18h00 com comida e bebidas na sala do clube, e acesso a bilhetes para o Court Central e o Court nº 1. Para manter a ordem, os nomes são sorteados diariamente para distribuir os ingressos exclusivos para os courts principais; o mais interessante, porém, não é a sua estrutura formal, mas o efeito que produz. O Last 8 Club transforma um resultado desportivo — atingir os quartos de final — num marcador de pertença histórica. Não é apenas um feito competitivo; é um ponto de entrada numa comunidade que atravessa gerações. Jogadores que nunca se encontrariam de outra forma tornam-se, pelo menos simbolicamente, contemporâneos.
Ao longo das décadas seguintes, tal lógica consolidou-se sem necessidade de grande reformulação. O Last 8 Club resistiu à tentação de se tornar um instrumento de marketing ou uma plataforma de celebração ativa. Permaneceu discreto, quase invisível fora dos círculos internos de Wimbledon. Essa invisibilidade é, paradoxalmente, uma das razões da sua longevidade. Num desporto cada vez mais saturado de narrativa mediática, o Last 8 Club mantém uma espécie de silêncio institucional que o protege da banalização.
Mas para compreender verdadeiramente o seu significado, é necessário perceber como Wimbledon constrói a sua própria memória. Ao contrário de outros torneios do Grand Slam, onde a ênfase recai frequentemente sobre a vitória final, Wimbledon sempre cultivou uma hierarquia mais complexa de reconhecimento. A presença nos quartos de final, especialmente em eras anteriores à profissionalização plena do ténis, tinha um peso quase equivalente ao de uma consagração moral. Era o momento em que um jogador se inscrevia definitivamente na história do torneio, mesmo sem o vencer.
É nesse ponto que o Last 8 Club se torna mais do que uma curiosidade institucional. Ele cristaliza uma filosofia: a de que a história do ténis não é feita apenas de campeões, mas de múltiplas camadas de excelência que se cruzam e se repetem ao longo do tempo. O clube não celebra o triunfo, mas a pertença a um nível específico de competição onde a margem entre vitória e derrota é frequentemente mínima, quase impercetível.
Nos bastidores de Wimbledon, essa consciência é particularmente visível durante o próprio torneio. Jogadores que regressam anos depois como antigos quartos-finalistas ou semifinalistas são frequentemente integrados em eventos do clube, onde a conversa entre gerações se torna inevitável. Um jogador dos anos 80 pode partilhar mesa com um quartofinalista recente, e a linguagem comum não é a nostalgia, mas a experiência partilhada de ter estado ‘lá dentro’, nesse ponto do torneio onde a pressão muda de natureza.
Nos anos que se seguiram à sua fundação em 1986, o Last 8 Club integrou naturalmente a gramática institucional do All England Club sem necessidade de grande exposição pública. Não há campanhas de comunicação associadas ao Last 8 Club, nem uma presença visível fora do perímetro de Wimbledon durante o torneio. Essa ausência de ‘exterioridade’ é, aliás, uma das suas características mais distintivas. O clube existe quase exclusivamente dentro do próprio ecossistema de Wimbledon, como uma camada paralela de reconhecimento que não interfere com a competição, mas a acompanha silenciosamente.
Ao longo da década de 90, com a crescente globalização do ténis e a profissionalização acelerada do circuito ATP e WTA, Wimbledon reforçou ainda mais a sua identidade como guardião de tradição. Nesse contexto, o Last 8 Club ganhou uma função inesperada: a de estabilizador histórico. No presente milénio, essa função tornou-se ainda mais evidente. Jogadores que tinham atingido os quartos de final em Wimbledon na juventude regressavam anos depois, muitas vezes já retirados, e reencontravam-se num espaço onde a sua participação no torneio permanecia reconhecida sem necessidade de atualização ou contextualização. O estatuto de membro não envelhece. Não depende de forma física, ranking ou atualidade competitiva.
Esse carácter estático dentro de uma carreira dinâmica é, talvez, o elemento mais singular do Last 8 Club. Ao contrário de outras formas de homenagem no desporto (panteão da fama, cerimónias de jubilação ou convites honoríficos), o Last 8 Club não reavalia o mérito. Não há hierarquização interna, nem atualização de estatuto. Um quartofinalista de 1972 e um de 2024 coexistem na mesma categoria sem necessidade de comparação.
No presente, a importância do clube reside menos na sua atividade e mais na sua capacidade de integrar diferentes tempos do ténis num mesmo espaço institucional. Durante o torneio, o All England Club continua a acolher encontros informais e eventos associados ao Last 8 Club, onde antigos jogadores regressam não como figuras de exibição, mas como parte de uma continuidade histórica viva. É aqui que o clube revela o seu valor mais subtil: a criação de uma comunidade que não depende da simultaneidade. Esse aspeto torna-se particularmente relevante no contexto contemporâneo, em que o ténis profissional é cada vez mais global, mediático e acelerado. A experiência de Wimbledon permanece, no entanto, profundamente ancorada num sentido de ritual; o Last 8 Club reforça esse ritual ao estabelecer um elo entre jogadores separados por décadas, mas unidos por um momento competitivo comum.
Com a celebração do 40.º aniversário do Last 8 Club durante a edição de 2026, essa dimensão ganha uma nova leitura. Estiveram presentes dezenas de membros de múltiplas gerações. Mais do que uma celebração, o aniversário funcionou como um ponto de observação sobre a própria longevidade de Wimbledon enquanto instituição capaz de se auto-historicizar sem se desfigurar. O Last 8 Club é, nesse sentido, uma extensão dessa capacidade: um mecanismo de memória que não precisa de ser atualizado para continuar relevante.
A longevidade do clube também levanta uma questão implícita sobre o significado dos quartos de final no ténis moderno. Num circuito onde a densidade competitiva é cada vez maior e as margens entre jogadores são mais estreitas, atingir os últimos oito de Wimbledon continua a representar uma forma de distinção significativa e é mais recompensador do que chegar aos quartos de final noutros eventos do Grand Slam. Não é apenas um resultado estatístico; é uma validação de consistência, adaptação e capacidade de desempenho sob as condições específicas do torneio mais simbólico do calendário. Este ano, Naomi Osaka — que já foi número um mundial e ganhou quatro títulos do Grand Slam — ficou surpreendida ao receber o badge e saber que foi promovida ao Last 8 Club.
Num desporto obcecado por rankings, recordes e títulos, há algo quase subversivo na ideia de um clube que reconhece apenas um ponto específico da trajetória competitiva — um ponto onde o jogador ainda não venceu, mas já ultrapassou quase todos os outros. É nesse intervalo, entre a afirmação e a consagração, que o Last 8 Club constrói a sua identidade. E talvez seja por isso que, quatro décadas depois da sua criação, ele continua a existir sem precisar de se explicar ou de se mostrar visível no recinto do All England Club.