Gastão Elias deu quase tantos títulos a quem sobre ele escreveu quantos triunfos somou por este mundo fora. Quase sempre inspirado, mesmo quando frustrado, reconheceu nas conferências de imprensa e entrevistas uma parte do trabalho que fez dele um dos desportistas portugueses de elite e não raras vezes brindou os que o escutavam com preciosidades. Esta terça-feira, sentou-se para falar como tenista pela última vez e voltou a abrir o coração para refletir sobre uma longa carreira, recusando, com a boa disposição que o caracteriza, fazer o trabalho todo e até o título dar.
“Tinha esta data presente na cabeça há muitos meses e tive todo este tempo para pensar e preparar este dia. Estava a deixar-me tenso e não consegui prepará-lo da melhor maneira porque foi difícil arranjar motivação para treinar e preparar o adeus, então hoje não podia ter exigido muito mais de mim. Foi uma experiência pesada, mas, ao mesmo tempo, foi um dia bonito e que vou levar para a vida. Ainda para mais por poder fazê-lo aqui no CIF, com a família e os meus amigos. Isso fez com que fosse ainda mais especial e sinto-me aliviado”, afirmou com muita serenidade.
Antes, já tinha cedido às lágrimas durante a cerimónia que aconteceu no Estádio CIF, logo após a derrota para Francesco Passaro no último encontro da carreira, e que foi particularmente emocionante quando chegou a hora de olhar para Rute Valente, a namorada e mãe da filha, Camila, que segurava ao colo.
Com as emoções mais dominadas, Gastão Elias embarcou numa última viagem narrada para recordar e desconstruir um percurso que fez dele um dos melhores tenistas portugueses da história — no sábado assinala-se 10.º aniversário da chegada ao 57.º lugar do ranking ATP, o quarto melhor registo de sempre no país.
Adiando o desafio de dar um título à carreira, lá acabou por fazê-lo pouco depois, sem se aperceber, ao contar que “de certa forma, acho que aquilo que fiz foi um milagre.”
“Tiha alguns problemas técnicos que estiveram comigo durante a carreira toda e que me complicaram muito a vida tenística. Tenho um problema no ombro direito desde que nasci e que fez com que nunca conseguisse fazer um cesto de serviços, porque se o fizesse o meu ombro enchia-se de líquido e eu ficaria dois ou três dias sem servir. Durante toda a minha carreira tentei encontrar soluções, falou-se de uma possível cirurgia, mas que nunca ninguém me confirmou que teria resultados”, explicou, agora já sem o secretismo que outrora a carreira o exigia.
“Entre terapias e diferentes tipos de exercícios, tive de deixar muito cedo de fazer, por exemplo, tudo o que fosse treino de ginásio para membros superiores. A partir dos 18 anos, tudo o que fiz para a parte de cima foi muito condicionado. Sempre que jogava durante duas ou três semanas o ombro ficava destruído e eu tinha de parar. Entre outras coisas, tudo isto faz-me acreditar que o que eu fiz foi um milagre. Se calhar de fora pareceu tudo um bocadinho mais simples, porque desde jovem era aquele jogador talentoso, que tinha uma facilidade incrível em jogar, mas por trás sempre tive muitos problemas técnicos que me minaram a confiança durante muitos anos e eu arranjei sempre maneiras de contornar isso.”
“A minha maneira de jogar deve-se precisamente a essas coisas. Posso dar um exemplo, uma coisa mais técnica e engraçada, mas que praticamente ninguém sabe: o meu slice era muitas vezes comentado e brincaram comigo porque eu dava muitas cabeçadas quando fazia slices. E o porquê vem do meu problema no ombro, porque quando eu fazia um slice não conseguia acabar com o ombro aqui [exemplifica a posição correta] porque me ativava um nervo. E então comecei a fazer o slice assim e ao longo dos anos fiz cada vez mais [o movimento] com a cabeça.“
Quando é de uma despedida que se trata, há perguntas que não podem ficar por ser feitas e também a essas respondeu: “Posso dizer que gostava de ter ganho um ATP 250. Mas se eu tivesse ganho um ATP 250, iria dizer que queria ter ganho um ATP 500. Gostava de dizer que fui top 50, não sei se não é um patamarzinho mais engraçado dizer que fui top 50 em vez de top 60. No final do dia não faz grande diferença, mas é talvez mais uma barreira psicológica ultrapassada, como o top 100. Em termos de escolhas, de opções técnicas e de tudo o que foi feito ao longo da careira, todas as decisões que tomei eram, naqueles momentos, as mais corretas. Nunca tomei nenhuma ao acaso e uma das maneiras que eu tenho de hoje em dia conseguir dormir tão bem é exatamente essa, entender que no momento tomei as opções que me pareciam mais corretas.”
Garantindo que “fazia tudo outra vez” porque “foi muito, muito, muito divertido, tirando alguns momentos péssimos de que a carreira também é feita”, Gastão Elias explicou orgulhar-se, sobretudo, de ter perseguido o desconforto.
“Orgulho-me de ter saído várias vezes da zona de conforto. Acho que isto é uma coisa que pouca gente consegue. E o facto de, ao longo de todos estes anos, ter tomado as decisões que a meu ver eram acertadas, mas ao mesmo tempo eram as mais difíceis, é o que me orgulha mais. Ir para a Flórida aos 16 anos, depois mandar-me para o Brasil para treinar, na época, com um total desconhecido. Primeiro, há poucas famílias que tenham a possibilidade de dar-se ao luxo de ajudar o filho como a minha família fez. E depois acho que tive mérito por ter a coragem de fazer isso.”
Quanto a conselhos, Gastão Elias dividiu-os:
“Um conselho muito específico… e que é uma das coisas que eu me arrependo, agora pensando bem, é não ter passado pelo circuito universitário americano. Na minha época era uma decisão muito difícil porque eu tive algumas propostas, mas ainda não havia muitos jogadores a passarem por lá e terem sucesso no circuito e ao mesmo tempo eu já tinha assinado um contrato com a IMG que fazia com que eu fosse considerado profissional e já não conseguiria entrar nas melhores universidades. Portanto essa decisão foi meio que tomada automaticamente, mas a um jovem que esteja a começar eu diria que pelo menos apontasse e passasse por aí, porque há uma experiência que fica.”
“Mas agora que já estou mais no mundo dos treinadores e a ajudar um miúdo, consigo ver as coisas de fora e apesar de sempre ter sido uma pessoa muito observadora acho que é importante gostar muito deste desporto. É um bocado cliché, mas se te queres mesmo mandar de cabeça é muito importante que desfrutes da competição. Porque é muito fácil desfrutar quando se ganha joghos, mas é muito difícil encontrar malta nova que goste de competição, de sofrer um break e ir atrás, ver o que não está a dar e tentar encontrar maneiras de dar a volta ao jogo. Não tendo isto, faz com que a carreira possa vir a ser muito complicada e que seja difícil ter sucesso neste mundo. Porque obviamente é horrível perder e muitas vezes torna-se depressivo, mas se uma pessoa não conseguir olhar para isto como sendo um processo em que tudo soma e tudo ajuda a tornar-se melhor, senão encarar isto como uma jornada… este desporto manda-te abaixo num instantinho. Portanto o meu principal conselho é este, desfrutar daquilo que estão a fazer.“