Manic Monday. Em Wimbledon respeita-se a tradição e, como tal, depois do Middle Sunday — em que a relva do All England Club descansa e o público aproveita o último dia do fim-de-semana para se preparar para a segunda semana de competição — vem a Manic Monday, considerado por muitos como o melhor dia de ténis do ano por incluir na sua programação todos os jogos da quarta ronda de um torneio do Grand Slam. Hoje, o começo prometeu, emocionou e abriu portas a um dia de muito ténis que não viria a fechar sem uma nova dose de emoções. A jornada não se concluiu a tempo do pôr do sol e o campeão regressa amanhã.
Campeão sofre, quase cai, recupera… E espera
Surpresa, surpresa, surpresa. Novak Djokovic e Kevin Anderson eram os últimos jogadores escalados para o Court No. 1 na jornada desta segunda-feira e o embate começou de forma surpreendente, muito surpreendente, como o número um sul-africano a conseguir ‘arrancar’ os dois primeiros sets ao líder do ranking mundial, campeão em título do torneio.
Sempre no tiebreak e com muito sofrimento (mas sempre bom ténis) à mistura, Anderson desenhou um começo de vitória bonito, limpo e justo pelo que foi sendo apresentado pelos dois jogadores em campo, até que no início do terceiro parcial uma quebra madrugadora deu a Djokovic o folgo necessário para lutar pela reviravolta. Interrompida, no entanto, devido à falta de luz natural e à decisão da organização de não transferir o encontro para o Centre Court — afinal, o que foi feito com Gilles Simon e Gael Monfils no sábado não faz regra; o embate só foi transferido por no dia seguinte se celebrar o Middle Sunday, que tradicionalmente não conta com quaisquer embates na relva britânica.
Voltando ao jogo, o registo de 24 quartos-de-final consecutivos em torneios do Grand Slam por parte de Novak Djokovic começava a afigurar-se como uma marca passível de ser quebrada já esta segunda-feira pelo jogador que, a fazê-lo, interromperia a marca história (e inédita até aos dias de hoje) de 15 anos de um continente (no caso o africano — excluindo obviamente a Antárctida) sem qualquer representante de um jogador nos quartos-de-final de Wimbledom. Em 2000, o último a fazê-lo foi Byron Black, do Zimbabué.
Não deu para mais. Se a vitória no quarto parcial poderia dar a Djokovic um ânimo acrescido para o quinto set, dá a Kevin Anderson a oportunidade de se reagrupar e recuperar toda a concentração com que conseguiu vencer os dois primeiros. Amanhã, os dois retomam a ação no Court No. 1 com o marcador a 6-7(6) 6-7(6) 6-1 6-4. Quem vencerá? Só o tempo o dirá e à espera está já Marin Cilic, o campeão em título do US Open.
Masterclass em dia de susto para herói local e de adeus a ex-finalista
Uma verdadeira lição de ténis. Foi em ‘modo espetáculo’ que Roger Federer se voltou a apresentar no Centre Court do All England Club esta segunda-feira frente ao Roberto Bautista-Agut, naquele que era o terceiro encontro de carreira entre ambos. Se o suíço deslizou, o espanhol até caiu e não teve tempo, espaço ou hipóteses de se reerguer e lutar pelo resultado.
Os parciais, 6-2 6-2 6-3, demonstram a facilidade com que o suíço de 33 avançou para mais uns quartos-de-final na relva de Wimbledon, que lhe garantem ainda a sua 77ª vitória no torneio. Ainda sem ser quebrado, Federer soma agora 106 jogos de serviço ganhos em outros tanto disputados na prova e está nos seus 45º quartos-de-final de carreira em torneios do Grand Slam. Aprofundando, atingiu a referida fase em 45 dos últimos 49 eventos que disputou.
O adversário que se segue para o heptacampeão de Wimbledon? Gilles Simon, francês protagonista de uma das maiores surpresas do dia ao derrotar o ex-finalista, Tomas Berdych (2010), em apenas três parciais e de forma muito, muito autoritária, por 6-3 6-3 6-2 com 80% de pontos ganhos no seu primeiro serviço.
A mais trabalho foi forçado Stan Wawrinka, que venceu David Goffin (7-6[3] 7-6[7] 6-4) para se manter em rota de uma dobradinha não muito comum entre Roland Garros e Wimbledon, só conseguida até à data por quatro jogadores — entre os quais os seus contemporâneos Roger Federer e Rafael Nadal –, e até Andy Murray, o favorito ‘da casa’, que viu Ivo Karlovic ‘arrancar-lhe’ um set no seu percurso rumo a mais uns quartos-de-final. Terminado o encontro, o domínio do britânico era evidente, mas os potentes serviços do croata (que perdeu por 6-7[7] 4-6 7-5 4-6) ainda tiveram o poder de acrescentar algum drama a um dos embates do dia no palco principal.
O duelo por que todos esperavam teve o desfecho esperado
De um lado Serena Williams, do outro Venus Williams. Aquando da realização do sorteio dos quadros principais um eventual encontro das duas irmãs na quarta ronda começou a revelar-se como o jogo mais aguardado de toda a prova, pelo menos nas primeiras rondas. Eliminatória após eliminatória as norte-americanas, filhas de Richard e Oracene, lá foram vencendo e confirmou-se. Hoje, abriram a jornada num Centre Court que tantos títulos já as viu conquistar — e de todas as maneiras. Quer sozinhas, quer uma contra a outra, quer lado a lado. Porque é delas grande parte da história das últimas décadas.
Em dois sets se escreveu o jogo e em dois jogos ficou apresentada a jogadora que melhores condições reunia para seguir em frente. Se dúvidas existissem, Serena venceu os oito primeiros pontos do encontro e chegou a estar perto de um segundo break consecutivo. Dentro do campo jogaram as duas Williams mas apenas uma, a número 1 dos tempos de hoje, teve reais hipóteses. É que Venus, também ela uma grande campeã do torneio de Wimbledon, não teve o ténis que lhe era requerido se queria voltar a vencer a sua irmã (era ela, aliás, a última vencedora dos embates entre ambas) para aproveitar aquela que provavelmente era uma das suas últimas oportunidades de lutar por um grande título. No final, 6-4 6-3 para Williams, Serena Williams.
Os passos da número um americana e mundial foram seguidos por duas compatriotas, que assim garantem o nome dos EUA como sucessor da República Checa com três representantes nos quartos-de-final de Wimbledon (que, aliás e a título de curiosidade, conta em 2015 com oito quarto-finalistas completamente diferentes das que em 2014 disputaram a mesma fase da competição). Primeiro foi Madison Keys a confirmar todo o seu potencial e a recuperar para derrotar a qualifier Olga Govortsova por 3-6 6-4 6-1, depois Coco Vandeweghe quem, de forma surpreendente mas com autoridade, conseguiu gritar ‘presente!’ na próxima etapa. A vitória foi conseguida por equilibrados 7-6(1) 7-6(4) sobre Lucie Safarova.
Ora, se a sexta cabeça de série, finalista vencida da última edição de Roland Garros (e semi-finalista em Wimbledon no último ano), ficou para trás, não foi a única. Também Caroline Wozniacki, da Dinamarca, abandonou a competição, voltando uma vez mais a cair na quarta ronda, de onde nunca passou. A responsável foi a espanhola Garbine Muguruza (6-4 6-4), que com mais uma exibição muito sólida se pode apurar para os quartos-de-final de um Major pela primeira vez na carreira. Os festejos, caída no chão e de mãos na cara, comprovam a importância deste momento na carreira de uma das tenistas mais talentosas da atualidade.
E por falar em ex-número um mundial… Jelena Jankovic, a carrasca da campeã em título, Petra Kvitova, na ronda anterior, não teve armas para lutar de igual para igual com Agnieszka Radwanska, que em 2012 disputou a final, e perdeu por 5-7 4-6, garantindo assim que, a par de Wozniacki, as duas são as únicas ex-líderes do ranking WTA a nunca ter alcançado os quartos-de-final em Wimbledon — todas as outras jogadoras que passaram pela posição cimeira da tabela classificativa chegaram, aliás, pelo meios às meias-finais.