Opinião: Ash Barty nos seus próprios termos — e uma mensagem importante para o ténis

O anúncio de Ash Barty chegou como uma enorme onda de choque, mas não foi totalmente surpreendente. Um olhar semi-atento às decisões e palavras da superestrela australiana nos últimos anos bastava para compreender que a nova líder do circuito mundial feminino diferia das antecessoras na forma como abordava a sua presença no desporto e a decisão de dar por concluída a carreira aos 25 anos confirmou-o. E também reforçou a necessidade de existir uma reflexão aprofundada entre os grandes decisores.

Tal como no final de 2014, Barty escolheu a felicidade. E a sua decisão foi ao encontro do que quem a conhecia já esperava. Porque a australiana nunca ambicionou estabelecer recordes, inscrever o nome na história de grandes feitos ou tornar-se no alvo a abater — queria, acima de tudo, ganhar Wimbledon e quando o fez só lhe restou um outro objetivo, vencer o Australian Open.

Com os dois troféus nas prateleiras de casa, o vazio que o futuro tenístico lhe antecipava transpôs a fome de vencer.

Triunfar em Londres e em Melbourne exigiu de Barty um esforço tremendo e anormal. Em plena pandemia, com as famosas restrições que o governo australiano impôs e tudo o que implicavam, a australiana viveu tempos contrastantes — primeiro, ao escolher permanecer no país (abdicou do que restou da temporada de 2020, incluindo a defesa do título em Roland-Garros) quando todas as rivais recomeçaram a viajar pelo circuito; depois, ao viajar durante nove meses consecutivos pelo mundo fora sem poder regressar a casa (as restrições e requisitos de quarentena tornariam impossível idas e voltas).

Por isso, foi mentalmente esgotada que a melhor tenista do planeta regressou a casa depois de uma tour mundial que teve os seus momentos baixos, como as muito surpreendentes derrotas na primeira ronda dos Jogos Olímpicos e na terceira ronda do US Open, mas também muitos momentos altos, com destaque natural para a conquista de Wimbledon.

Ali, na famosa relva do All England Club, Barty alcançou a glória eterna e sentiu-se realizada. Tinha ainda um pouco de apetite e foi isso que a fez continuar, mas percebe-se agora que o caminho já estava a ser traçado. E não só foi traçado como percorrido quando, apenas seis meses depois, replicou o sucesso de Londres em Melbourne e venceu o Australian Open.

Aquela caminhada perfeita no “seu” torneio do Grand Slam (em que não perdeu qualquer set) ficará para a história e ofereceu a Barty a última vitória que queria saborear enquanto tenista profissional.

Ela, que tanto tinha para dar e tanto podia alcançar, não quer mais e não tem medo de o dizer.

Desta vez não está “perdida”, não está “desligada” e não está “triste”. Está “decidida” e “feliz” com a decisão que tomou. Não lhe foi fácil fazer o anúncio, para o qual chamou a antiga parceira de pares, amiga e mentora Casey Dellacqua, mas há muito que o coração e a mente lhe indicavam, em uníssono, o caminho a seguir. Era uma questão de tempo até o fazer e o tempo foi encurtado a passos largos com a dupla conquista dentro de um semestre.

Barty, que viaja pelo mundo fora de raqueta na bagagem desde os 10 anos, não está a despedir-se do ténis, o desporto. Está a despedir-se do ténis, o trabalho. Da profissão que a obrigou a cruzar fronteiras atrás de fronteiras, cada vez mais longe da casa que não queria deixar e das pessoas de que não queria despedir-se. Agora, no seu conforto, começará a construir uma vida normal e a dar o seu contributo ao ténis australiano de outra forma — ao lado das novas promessas. “Ter a oportunidade de ver os sorrisos nas caras das crianças e dar-lhes a oportunidade de lutarem pelas suas carreiras vai ser uma forma linda de dar o meu contributo, estou muito entusiasmada“, afirmou na conferência de imprensa com que encerrou este capítulo.

Uma oportunidade para falar de saúde mental

Meses depois de Ash Barty expor os seus dilemas, Naomi Osaka deu origem a mais um importante movimento de discussão global em torno da saúde mental dos atletas de alta competição. Por razões diferentes, as duas tenistas mais populares da atualidade (Serena Williams será sempre Serena Williams, mas está longe dos courts e dos holofotes) colocaram o foco na saúde mental e o ténis deve aproveitar a oportunidade para refletir e fazer mais.

A WTA deu um passo importante ao anunciar um title sponsorship com a Hologic que transformou o circuito em Hologic WTA Tour e resultou no maior patrocínio global da história do circuito. A parceria — cujos valores não foram anunciados, mas serão significativamente maiores do que os 14,7 milhões de dólares anuais que a Sony Ericsson ofereceu entre 2005 e 2010 — tem como objetivo defender e melhorar o bem-estar e a igualdade para as mulheres.

Mas é preciso mais. O tabu em torno da saúde mental dos desportistas ao mais alto nível tem de cair e é necessário que os grandes decisores se unam e a encarem como uma prioridade.

O estigma de que falar de saúde mental é sinal de fraqueza tem de cair, porque Osaka admitir, perante uma audiência de milhões e uma pressão inigualável, que estava a “lidar com algumas coisas” foi, acima de tudo, um ato de coragem. Tal como foi para Barty assumir que voltar ao circuito mundial em plena pandemia não lhe faria bem. Ou Nick Kyrgios falar sobre os “momentos negros” que viveu.

O ténis é um dos desportos mais exigentes do planeta. Não é uma discussão, antes um facto. Por ser um desporto individual, mas também pela vertente global que desde muito cedo (ainda nos escalões juvenis) obriga a viagens constantes e pelo calendário sobrecarregado com competição ininterrupta (12 meses consecutivos com torneios internacionais, 11 deles ao mais alto nível — e praticamente obrigatórios — no circuito masculino e 10 no feminino).

Assim como nos últimos meses estas figuras abriram as portas a que milhares de jovens (e não só) por todo o mundo se sintam mais confiantes e seguros a abordar o assunto, talvez os circuitos profissionais devam fazer o mesmo para os jogadores. Osaka e Kyrgios têm milhões de dólares nas respetivas contas bancárias e demoraram anos a conseguir pedir ajuda. Imagine-se como poderá ser para aqueles que, em situações semelhantes, não dispõem do mesmo conforto financeiro. Nunca a criação de um departamento totalmente dedicado à saúde mental foi tão pertinente.


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