Tsitsipas e Kyrgios entram numa sala…

Primeiro Stefanos Tsitsipas, depois Nick Kyrgios. Os dois protagonistas do encontro do dia (e talvez da primeira semana) foram rápidos a trocar a relva do No. 1 Court pelo microfone da maior sala de conferências de imprensa do All England Club e nela trocaram galhardetes sem precedentes que certamente cairão nas boas graças dos produtores da Netflix, mas que fora do ecrã acabarão por de forma inevitável marcar — e manchar — a primeira semana de Wimbledon.

Por Gaspar Ribeiro Lança, em Wimbledon

Tinha acabado de me sentar numa das poucas cadeiras da sala que ainda estavam por preencher quando começou aquela que viria a tornar-se na conferência de imprensa mais surpreendente em que alguma vez estive.

Habitualmente contido, Tsitsipas deixou o filtro de parte: “Gostei do meu ténis, gostei do ambiente e gostei da forma como lutei para encontrar soluções e tentar controlar o encontro, mas estou desiludido com a forma como algumas coisas se desenrolaram, sobretudo por se repetirem uma e outra vez. Começa a ficar muito difícil ignorar. De certa forma pareceu um circo.”

O grego ainda não tinha acabado de responder à pergunta do moderador que habitualmente dá início à troca de palavras com os jornalistas e já estava a dar o mote para o que aí vinha.

“As conversas e as queixas constantes… Estamos lá para jogar ténis, não para ter conversas com outras pessoas. É muito frustrante ver que ele se ‘safa’ com aquilo e gostava que conseguissemos chegar a um consenso sobre uma regra que impeça que se fale tanto enquanto se está a jogar. A cada ponto que joguei hoje sentia que havia qualquer coisa a acontecer do outro lado da rede”, lamentou Tsitsipas depois de ter deixado elogios ao lado de tenista do adversário — “Gosto do que o ténis dele traz ao nosso desporto, ele é muito diferente e isso não é uma coisa má.”

As críticas a Kyrgios não são uma novidade, mas raramente — se é que alguma vez — se ouviu algo assim da boca de um jogador, sobretudo com o estatuto de Tsitsipas.

No entanto, este sábado o grego decidiu abrir o coração — o que esteve na origem da resposta em formato de críticas que se seguiu. Mas já lá irei.

“Não há outro jogador que faça isto. Não há outro jogador que esteja tão chateado e tão frustrado com alguma coisa a toda a hora”, acrescentou, antes de fazer a maior acusação da noite: “Ele faz bullying constante aos adversários e provavelmente também o fez na escola. Tem um lado negro dentro dele.”

Entre os desabafos sobre o adversário, Tsitsipas admitiu que tentou acertar-lhe propositadamente (“para ver se ele parava de fazer o que estava a fazer”) e pediu desculpa pelo comportamento que quase resultou na sua desqualificação — atirou uma bola na direção do público e quase acertou num espetador. Mas colocou parte das culpas nas atitudes de Kyrgios: “Foi muito mau da minha parte. Nunca tinha feito nada assim e nunca mais vou voltar a fazê-lo, não sei o que é que se passou na minha cabeça. Felizmente não acertei em ninguém. É minha responsabilidade, claro, mas também houve algo da parte dele que despertou este comportamento em mim.”

Em suma, Tsitsipas chegou à sala de conferências de imprensa estupefacto e deixou os jornalistas estupefactos. Mas fê-lo com o discurso que se lhe conhece: calmo, ponderado, com um certo tom filosófico que por vezes o caracteriza e, acima de tudo, com a sensibilidade que valeu um comentário do adversário.

“Se ele ficou afetado por isto, então é isso que o está a prender, porque é algo que qualquer um lhe pode fazer”, reagiu Kyrgios — talvez a única tirada não polémica e daquela que foi uma das maiores conferências de imprensa da semana e que, na sua maioria, deixou patente o gosto para a “picardia” que o australiano tem, bem à imagem de várias “trocas de bolas” em conferências de imprensa da NBA, a liga e o desporto de que mais gosta.

“Não sei o que é que hei de dizer”, afirmou entre risos ao tomar conhecimento das acusações de bullying. “Não estou a ver como é que o posso ter feito. Ele é que tentou acertar-me com a bola, ele é que acertou num espetador, ele é que atirou uma bola para fora do court. Eu não fiz nada. Para além de discutir com o árbitro por um bocado, não fiz nada ao Stefanos e não lhe faltei ao respeito.”

“Acho que ele está a querer tornar isto sobre mim quando tem problemas maiores. Eu tenho muitos amigos e sou um dos jogadores de que mais gostam no balneário, estou bem, mas ele não”, acrescentou Kyrgios numa conferência de imprensa em que evitou o que verdadeiramente destabilizou o encontro — os desabafos e discussões constantes quer para o público, quer para o árbitro de cadeira, quer para o camarote da equipa. Sem esquecer a linguagem imprópria que utiliza recorrentemente e que fez com que dois juízes de linha informassem o árbitro de cadeira.

Tsitsipas pode ter posto o filtro de parte, mas nem ele, nem Kyrgios fugiram a quem são. Esse é o elogio que lhes faço. A crítica divide-se em duas: houve momentos em que o comportamento do grego foi inaceitável e esteve encaminhado para poder alterar a perceção da sua personalidade (são encontros como o desta noite que são vistos pelas massas e têm a capacidade de tornar um tenista numa figura global); e o australiano está a tempo de deixar uma marca significativa na história do ténis, mas precisa de se distanciar da mentalidade reality show.

No fundo, Tsitsipas queria um ambiente o mais calmo possível porque são essas as condições que lhe permitem estar relaxado e soltar o seu melhor ténis. E Kyrgios queria exatamente o oposto porque é ao caos que suga energia. Há algumas regras a limar (tem de haver uma decisão clara sobre o que é e não é permitido dentro dos gestos de descontentamento). E a gestão de tudo o resto tem de ser feita pelo árbitro de cadeira.


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