Nova Iorque nunca dorme e o US Open também não

O US Open é uma extensão do ADN americano: aqui, excentricidade e extravagância não são sinónimos, antes complementos que melhor ajudam a descrever uma cidade dentro de outra, eternamente obcecada com mais e maior, sobretudo maior.

Por Gaspar Ribeiro Lança, em Nova Iorque

A Big Apple é conhecida como a cidade que nunca dorme e o US Open não podia ser exceção, quer porque tem o maior court do mundo, quer porque se alimenta de jornadas tão longas quanto possível — mesmo que isso implique testar os limites do corpo humano. Afinal, todas as máquinas precisam de combustível e esta vive, em grande parte, da necessidade de transformar cada hora de ténis em espetáculo.

As sessões noturnas de Flushing Meadows fazem parte da história do torneio desde 1975 (o Australian Open só o fez em 1988, Roland-Garros apenas em 2021 e Wimbledon nunca introduziu o conceito) e são um produto dentro do próprio produto. Têm bilhete próprio, programação própria e até nome próprio na televisão: Primetime at the US Open. Num torneio que acaba de iniciar um novo contrato de 12 anos com a ESPN, avaliado em mais de dois mil milhões de dólares, várias horas de espetáculo sob os holofotes do Arthur Ashe Stadium são demasiado valiosas para serem desperdiçadas.

Por isso, é claro que Venus Williams ia jogar à noite. Aos 46 anos, a duas vezes campeã do torneio continua a ser uma das figuras mais reconhecíveis do ténis americano e o encontro com Sofia Kenin oferecia tudo o que Flushing Meadows procura para este slot: duas campeãs Major, duas americanas e uma dose considerável de nostalgia.

O problema surge com a impossibilidade de saber quando começa o segundo ato.

Novak Djokovic e Mariano Navone ocuparam o palco durante mais de quatro horas e meia e empurraram o blockbuster da jornada para as 00h13, um novo recorde de início mais tardio no US Open. A essa hora, o prime-time televisivo já tinha desaparecido e com ele escapou boa parte do valor comercial. Restava a contradição: um torneio desenhado para maximizar o espetáculo acabou por esconder uma das suas maiores atrações depois da meia-noite.

E assim cria-se um paradoxo.

Venus Williams só recebeu um wild card para o quadro principal do US Open porque, independentemente do que dizem os 46 anos, o ranking e as 14 derrotas consecutivas com que chegou a Nova Iorque, continua a gerar um interesse mediático que poucos conseguem igualar. O tempo apanha-nos a todos, mas a nostalgia vende e uma sessão noturna como esta é tão apelativa quanto possível para o mercado interno. Só que o mesmo modelo que procura rentabilizar ao máximo a presença de uma estrela criou as condições para que essa estrela começasse a trabalhar depois do próprio horário ideal.

O debate sobre as sessões noturnas não é novo, mas adensa-se quando a USTA opta por abrir a programação com um encontro masculino, jogado à melhor de cinco sets, que potencia um arranque tardio para o feminino, no máximo com três. Tomar o cenário inverso como norma resolveria parte do problema, reduzindo consideravelmente a probabilidade de obrigar um atleta profissional a esperar pela meia-noite para entrar em ação.

Mas não resolveria tudo. A hora de término seria a mesma e o formato experimentado por Roland-Garros, com um único encontro na sessão noturna, torna-se comercialmente desastroso quando esse encontro não é longo. A solução mais óbvia passa, então, por antecipar o início da sessão. Afinal, no primeiro dia houve um intervalo de três horas em pleno Arthur Ashe Stadium — e a situação repetiu-se esta segunda-feira.

Este intervalo também leva a um aumento da concentração de espetadores (mais de 20.000) num recinto por si só já massacrado, tal tem sido o aumento do número de bilhetes disponibilizados. As queixas alargam-se, agora, à Fan Week, o nome dado à semana de qualifying e que se tornou tendência nos três torneios do Grand Slam que ousam desafiar a tradição.

Em Melbourne, Paris e Nova Iorque, um Major já não dura duas semanas, mas três, tal é o espetáculo criado na primeira. Além do qualifying, multiplicam-se exibições e eventos paralelos e o US Open é o expoente máximo deste crescimento — dentro e fora do court e até para lá dos limites do recinto, com dezenas de campanhas e ações promovidas pelos patrocinadores. O que há uma década seria impensável é agora norma e foi nesta semana que a USTA promoveu uma exibição galática de homenagem a Roger Federer. Mais bilhetes, mais merchandising, mais refeições e, sobretudo, mais tempo de antena. Assim fica mais fácil vender o ténis como um desporto para todos.

Não havendo uma única entidade organizativa, o ténis sentirá sempre dificuldades em reinventar-se e corrigir-se. No início de 2024, a ATP e a WTA uniram esforços para reduzir as madrugadas e estabeleceram as 23 horas como limite para o arranque de um encontro. Mas os torneios do Grand Slam têm as suas próprias regras e não estão obrigados a seguir os circuitos, uma fragmentação que ajuda a explicar como o desporto reconhece um problema sem necessariamente o conseguir resolver.

Na procura incessante por mais, o US Open arrisca-se a ter menos: menos público nas bancadas, menos espetadores na televisão e, por consequência, menos valor para um espetáculo pensado precisamente para espremer cada minuto ao máximo.

Nova Iorque pode dar-se ao luxo de nunca dormir. O ténis tem de perceber que não pode fazer o mesmo.

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