Dieter Calle, o mestre a quem a elite confia as raquetas que “nunca saem iguais da fábrica”

Da mesma forma que um alfaiate faz uso da sua destreza para conceber um fato por medida ou um mestre armeiro forja a espada certa para a mão do cavaleiro, também no ténis há quem faça dos mais pequenos detalhes, arte. Dieter Calle é um dos raros personalizadores de raquetas de classe mundial e o seu ofício está por detrás do sucesso de muitos dos jogadores da elite.

O ténis é um caso à parte de muitas das outras modalidades. A história impôs que a ação capital não se fizesse com o pé, nem propriamente com a mão. Tudo nasce dos cerca de 30 centímetros que medeiam o punho humano e a bola em rotação. É da raqueta que parte o winner e a dupla falta, a glória e a frustração.

Este instrumento, herdeiro natural do embrionário jeu de paume — esse sim, jogado com a mão —, passou a servir de acréscimo artificial à força braçal. E é por isso que o ténis é um desporto tão complexo, onde todos os detalhes contam. Onde um mínimo desvio técnico ou mecânico faz disparar a bola para além da linha de fundo. Quem o diz são os melhores do mundo.

Dieter Calle viveu o ténis desde novo e grande parte da sua vida foi, e é, dedicada aos bastidores. O seu papel primário passa por eliminar as imperfeições que escapam à maquinaria das fábricas. Numa entrevista exclusiva ao Raquetc na ocasião do ATP 250 de Bruxelas, o especialista belga em personalização de raquetas explica o que faz desta profissão tão especial — e o porquê de ser tão importante esculpir os detalhes com um toque humano.

Do anonimato ao estrelato, começa por explicar como aconteceu a transição do court para o atelier, marcado por um longo vínculo com a Tecnifibre: “Jogava a um bom nível quando era novo e em 1996 passei a trabalhar com a Tecnifibre. Comecei pouco a pouco a personalizar, a nível de peso, balanço e swingweight (peso dinâmico). Depois, comprei algumas máquinas e aprendi muito sobre a parte científica através de um belga, engenheiro físico. Há sete anos, passei a estar mais independente enquanto personalizador a full time.”

É filho de um país que muito deu e dá ao ténis — não só os ex-top 10 Justine Henin, Kim Clijsters e o recém retirado David Goffin, mas também foi na Bélgica que nasceram marcas que marcaram (e marcam) gerações: a Luxilon e a Donnay. Reside no coração da Europa, mas as particularidades da sua profissão tornam-no um cidadão do mundo. Um dinamismo que contrasta com o trabalho monótono e meticuloso de personalizar as raquetas.

“Viajo para fazer os testes. Viajo muito, dois ou três dias [nessa semana], com o jogador. Eles vêm ter connosco, ou nós vamos ter com eles. Preparamos os grips em casa, no atelier, porque há jogadores que utilizam o formato da Wilson, ou Babolat, e isso não conseguimos preparar no local. Assim que o grip e o butt cap estão prontos, podemos terminar as raquetas no local, independentemente de onde estivermos”, explica o artífice.

Pouco depois, revela que, ainda na década de 1990, foi contratado enquanto encordoador da equipa belga para a Taça Davis. Um patamar que lhe permitiu trabalhar de perto com os melhores jogadores do seu país e que lhe abriu as portas para um horizonte mais alargado. Porque “havia jogadores, como [Filip] Dewulf, que pertenciam ao topo e não tinham ninguém para tornar todas as suas raquetas iguais.”

Dieter Calle (no centro), enquanto membro da equipa da Bélgica nas Davis Cup Finals, em novembro de 2025. Créditos: Emmanuele Ciancaglini.

Dieter Calle confessa que, ainda que o trabalho de encordoação seja aquele que está mais visível aos olhos dos leigos, não é, para si, o mais importante. Ao longo da conversa, reitera, com frequência, que as chaves do sucesso são outras: a de moldar grips, para que estes assentem, que nem uma luva, à mão de cada jogador; e, claro está, de eliminar as mínimas diferenças que possam existir quando as raquetas são concebidas. Isto porque, garante, “nunca saem iguais umas às outras na fábrica”.

Observa aquilo que escapa à vista de todos os outros e alimenta-se dos pormenores para se assegurar que todas as armas de um determinado jogador sejam rigorosamente iguais, sem grama alguma como outlier. “Nenhuma marca é capaz de fazer raquetas idênticas quando saem do molde”, assevera, e é por isso que é tão importante assegurar-se da uniformidade: “Há fatores como o peso, o balanceamento e o swingweight“. Este último, o peso dinâmico, é testado com todo o rigor que se faria imaginar: “Ensaia-se numa máquina que transporta a raqueta da esquerda para a direita, para fazer a medição”.

Face à impossibilidade da perfeição vinda das fábricas, nasce a profissão de Dieter Calle e dos seus pares: “As raquetas chegam até nós, porque há jogadores que têm determinados swings e que querem jogar mais pesado. Mas isso não é comercial e não se pode encontrar [à venda]. A minha função mais importante é tornar as raquetas iguais, mas para isso é melhor ir para o court e pensar: temos de torná-las iguais de qualquer forma, então é melhor que coloquemos isto aqui ou ali, pois é o melhor para o teu swing e para a forma como jogas”.

A meio do diálogo, Dieter Calle constata que a procura pelos seus serviços é cada vez maior, talvez devido ao reconhecimento e apreço que recebe desde os jogadores e que passam palavra entre si. Por colaborar com a Tecnifibre, passam-lhe pelas mãos as raquetas de Francisco Cabral, por exemplo: “Trabalho com mais de 55 jogadores de topo, entre mulheres, homens e pares. Agora, colaboro com Gael Monfils, Cameron Norrie, [Valentin] Vacherot, [Daniil] Medvedev, [Iga] Swiatek, [Ons] Jabeur, [Tomas] Machac. Mas também tenho a liberdade de trabalhar com outros jogadores [que não os representados pela Tecnifibre].”

Garante que o compromisso é máximo em qualquer trabalho que faz, mas reconhece que alguns dos clientes, quer pela minuciosidade que lhes é inerente, quer pelo seu temperamento dentro de court, tornam a tarefa mais complexa. E aponta alguns nomes: “Xavier Malisse era muito rigoroso com os detalhes nos grips, por exemplo. Não é uma questão de se ser um jogador difícil, mas sim de se ter a certeza a nível mental que tudo está a funcionar. Arthur Rinderknech consegue sentir quando o grip está um bocado diferente e por isso temos de fazer um bom trabalho para ele. Iga Swiatek também se preocupa muito com o material, não é fácil mudar e já joga com a mesma raqueta por cinco ou seis anos.”

Num mesmo tom de conversa que denota a sua paixão pelo que chama rotina, justifica a singularidade deste ato de personalizar raquetas à medida de cada jogador: “Para o Alex Michelsen, o grip 3 é demasiado grande, mas o grip 2 é demasiado pequeno. Então, construímos algo no meio, podemos fazer o que quer que seja.” E confessa, também, que muitas vezes a essência da raqueta mantém-se, mesmo que o jogador transite de marca: “Alguns jogadores jogaram a vida toda com Wilson, por isso quando mudam para Babolat querem um formato igual nas raquetas. Algumas marcas fazem a personalização, como a Babolat, mas os jogadores de topo querem saber ao certo quem a fez, e só querem mesmo essa pessoa.”

Adentrando no mundo das especificações, Dieter Calle diz que a tomada de decisões é tripartida entre ele, o jogador e o treinador. E, reforça, no ténis cada grama conta: “Se o jogador quer um pouco mais de potência aqui ou ali, podemos adicionar mais chumbo adesivo ou mais silicone na pega, o que quer que seja.” O trabalho de casa, esse, faz-se através de um aprofundado estudo dos concorrentes: “Tenho acesso a todos os dados de qualquer jogador do mundo. Todas as marcas medem as raquetes de todos os jogadores, mesmo os que usam outras marcas. Em Monte-Carlo, Roterdão ou Miami é a Tecnifibre, e eu estive lá para medir todas as raquetas de todas as outras marcas. Depois, pode analisar-se que jogadores com determinados swings jogam de tal forma, aprende-se imenso ao estudar os detalhes dos outros jogadores.”

Regressando àquele que é o seu maior trunfo, admite que o trabalho realizado no cabo da raqueta ainda não é tão desenvolvido a nível global como a arte da encordoação, por exemplo. No entanto, encara-o com ainda maior relevância para a performance do atleta: “Temos umas cinco formas diferentes de transformar o grip: com arestas mais definidas, moldando-o, estendendo-o… e isso não é fácil de fazer. Acho que muita gente faz um bom trabalho na personalização, mas a remodelagem do cabo é algo muito complicado.”

Butt caps de raquetas personalizadas para Gael Monfils. Créditos: Dieter Calle

Nascido no mesmo país da Luxilon — marca que na década de 1990 introduziu no mercado as revolucionárias cordas de poliéster, popularizadas por Gustavo Kuerten —, Dieter Calle admite a importância de se escolher uma encordoação que harmonize com o estilo de jogo em vista: “A raqueta pode parecer perfeita se fizer um bom swing, mas os jogadores podem dizer que as bolas vão dez centímetros demasiado longe. Isso muda-se nas cordas, alterando para cordas mais rígidas, mais confortáveis ou mais tensas.” Segue mais perto do que ninguém as novas tendências do ténis e prevê a extinção de um material utilizado de forma híbrida por Roger Federer ou Novak Djokovic: “Nos últimos anos, as cordas de tripa natural têm desaparecido cada vez mais. Agora, quase todos usam poliéster, com monofilamento. No princípio, há cerca de 15 ou 20 anos, a Luxilon era muito forte — e ainda o é —, mas as marcas [de raquetas] tentam proteger-se a si próprias, e se assinas um contrato com a Tecnifibre ou Babolat, vão querer que uses as suas cordas. E as outras marcas já chegaram ao nível da Luxilon, todas têm boas cordas hoje em dia.”

Falando da evolução à qual o ténis não escapa, compreende a razão de os jogadores optarem por equipamento cada vez mais leve, mas vê um desafio tanto para si, como para eles: “Sem muita margem, fica difícil para tornar as raquetas iguais. Com umas três gramas não se pode fazer muito. Para as mulheres, começo com raquetas mais leves, de 285 gramas, e para os homens começa-se com 300. É verdade que os jogadores usam raquetas cada vez mais leves, mas também se torna arriscado, porque quando se joga demasiado leve o impacto é muito grande e há mais lesões. Hoje usa-se muito stiff strings e poliéster de monofilamento, associados a raquetas mais leves. É arriscado para as articulações nos braços — no cotovelo e no ombro.”

E por não acreditar que a perfeição não exista, lembra que esta é uma colaboração contínua com o jogador, com pequenas nuances a serem corrigidas em busca de sensações ou estilo de jogo modificados: “Às vezes fazemos seis raquetas e o jogador liga-me a dizer que precisa um pouco mais disto ou daquilo, mas isso é trabalhar conjuntamente para uma solução. Há jogadores difíceis e jogadores fáceis, é verdade. Há jogadores que a cada seis meses querem mudar uma coisa, outros que mudam assim que perdem, e outros jogadores que mantêm a raqueta igual durante toda a vida, como é o caso de Cameron Norrie. Ele nunca mudou nada em oito ou nove anos, gosta da raqueta como está e quando perde sabe que a culpa é dele e não da raqueta.”

Feitas as contas, Dieter Calle não tem dúvida de que as milhares de horas despendidas nos bastidores, por vezes solitários, são recompensadas com o fruto do seu trabalho:

“Recebemos muito reconhecimento por parte dos jogadores. O bom deste trabalho é que quando tens de ir ao court, ficas a conhecer o mundo. Viaja-se muito e o jogador aprecia o trabalho, porque para eles as raquetas são muito importantes. Depois, se fazes um bom trabalho e todas as raquetas estão iguais, eles respeitam-te. Mas é importante não esquecer que durante quatro dias por semana estamos em stress: há prazos e, quando as marcas lançam novas cores, tens de fazer muitas, muitas raquetas, porque os jogadores estão à espera. Hoje, preparei 20 raquetas. Quando se preparam 20 raquetas num dia, claro que preparar a 20.ª raqueta vai ser aborrecido. É importante não esquecer que isto é feito em cadeia, como se fosse uma fábrica de carros, sempre a repetir o mesmo processo. Tenho um ajudante a full time e um dos meus filhos está a entrar no negócio pouco a pouco, já encordoa e tem um diploma em desenvolvimento de produtos, sobre impressão 3D. Vamos ver como corre, há sempre espaço para mais um.”

Tal como um alfaiate continua a ser insubstituível na conceção de um fato por medida, também no ténis se comprova que a produção em massa não consegue rivalizar — e muito menos substituir — o toque humano e quase cirúrgico destes escultores de raquetes.

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