Frederico Marques: “Mais um par de meses e os últimos dois encontros provavelmente caíam para o nosso lado”

Ouvem-se aplausos vindos do Court Philippe-Chatrier, o público a passar pelas laterais do maior estádio do complexo na azáfama habitual de um torneio do Grand Slam. Há vários encontros a decorrer e outros por começar, mas para Frederico Marques o trabalho nesta edição de Roland-Garros terminou um par de horas antes, com a derrota de João Sousa na segunda ronda do quadro principal de singulares. Ainda assim, o treinador português responde positivamente ao apelo e chega bem disposto e falador ao encontro marcado com o Raquetc, combinado para assinalar o fim da época de terra batida.

Por Gaspar Ribeiro Lança, em Roland-Garros

“Agora é descomprimir e descansar um bocadinho, também faz falta recarregar as baterias.” Em uníssono com o pupilo, Frederico Marques não está feliz, porque apesar de este ter sido o primeiro Roland-Garros desde 2017 em que João Sousa registou uma vitória, a dupla é ambiciosa e queria mais. Mas fala como quem sabe que o que lá vai, lá vai e acima de tudo crente de que “o ténis acaba sempre por dar de volta” — os últimos dois anos dão força à filosofia.

Sobre o que aconteceu horas antes — a derrota por 7-6(5), 6-3 e 6-4 para o italiano Lorenzo Sonego, 32.º cabeça de série — a análise é sucinta e feita de olhos postos no futuro: “Se este encontro fosse mais para o final da temporada, o mais normal seria que caísse para o nosso lado. Falta-nos mais um par de meses a este nível, mais uma mão cheia de torneios com quatro ou cinco encontros a jogar e a ganhar a jogadores do top 50 e a este ritmo de top 50, em que se falha menos e a bola tem ainda mais velocidade. O João está habituado a isso, porque está há muitos anos aqui, mas neste momento ainda nos faltam alguns torneios para que não nos precipitemos tanto em determinados momentos e estejamos um pouco melhores nos momentos decisivos. Acho que foi isso que falhou tanto na semana passada, quanto nesta.”

A campanha de João Sousa em Roland-Garros aconteceu na ressaca da final no ATP 250 de Genebra, que o vimaranense perdeu no sábado, após 3h02, para o top 10 Casper Ruud depois de ter servido para o título na terceira partida. Ou, como afirma Frederico Marques, “não a perdeu, escapou-lhe.”

“Não posso dizer que o João tenha perdido, porque considero que serviu bem em praticamente todos os pontos. O Ruud é que aumentou muito o nível, porque é isso que faz um top 10. Não facilitou a tarefa ao João e a partir do 5-5 foi quase sempre superior. Mas respondendo à pergunta [se o resultado desse encontro esteve presente nos vários pensamentos dos dois encontros em Paris], uma final como aquela envolve muitos aspetos. Há sempre a expetativa dos pontos, porque entre ganhar e perder são 100 pontos de diferença, há sempre aquele dinheiro extra e neste caso a quase entrada no top 50 e o quinto título que fica na cabeça.”

Honesto, Frederico Marques acrescenta que “isso pesou na primeira ronda aqui, mas também podíamos perfeitamente ter perdido esse encontro, em que o Tseng algumas vezes até esteve por cima em nível, portanto ao ultrapassarmos o desafio já recuperámos alguns pontos, algum dinheiro… o ténis acaba sempre por ser justo.”

A justiça de que o treinador fala é o momento em que os resultados acompanham os progressos feitos nos treinos, no caso as duas finais Challenger com que João Sousa fechou 2021, o título no ATP 250 de Pune e o vice-campeonato no ATP 250 de Genebra já em 2022 e, pelo meio, o regresso ao top 100, ao top 90, ao top 80 e ao top 70 — com o top 50 a menos de 100 pontos depois de Roland-Garros.

“Querendo ou não querendo, já levávamos algum tempo sem competir e sem ganhar a estes jogadores, sem ter esta euforia, sem receber os parabéns depois deste tipo de vitórias. Apesar de serem sensações que conhecemos, acaba por ser tudo de novo nos últimos anos e isso significa um desgaste emocional que mexe, mas agora o João volta a estar preparado para isso e, como digo, se tivessemos mais um par de meses com vitórias destas acredito que estes dois encontros [a final de Genebra e a segunda ronda de Roland-Garros] não nos tinham escapado”, insiste o treinador de 35 anos.

A conversa prolonga-se e Frederico Marques explica que a confiança não vem de agora, mas da pré-época: “A pré-época é sempre muito importante para o João, sempre que a faz fica com uma grande bagagem para o resto da temporada porque em Barcelona preparamo-nos sempre com jogadores do top 100 e isso dá muito ritmo e muita confiança. Não fizemos as duas anteriores [2019-2020 e 2020-2021] de uma maneira tranquila, sem dores, por isso esta foi a primeira dos últimos tempos que conseguimos fazer verdadeiramente em boas condições. Isto já depois de um final de época com duas finais em três torneios Challenger, um par de vitórias sobre top 100 e muitos encontros seguidos.

“Se me perguntasses isso há um ano e meio, sim, estávamos longe. Foram muitas derrotas em primeiras rondas, a perder sem ganhar nenhum set a este nível, e raramente se chega a uma final por acaso. Mas este ano não me surpreendeu. Pune apareceu logo no início do ano, mas já numa fase em que vínhamos de ganhar muitos sets de treino, de ganhar a jogadores do top 100 na pré-época e por isso não me surpreendeu, como não poderá surpreender voltar a ver o João no top 50 e, porque não, de volta aos 30 primeiros. O nível dele está lá e fisicamente está cada vez melhor. Está a aceitar de maneira mais tranquila o erro, o estar por cima e depois por baixo, graças à experiência que já tem, por isso porque não o melhor do João ainda estar para chegar?”

A propósito da forma de João Sousa, Frederico Marques ainda acrescenta uma ideia que já tinha partilhado durante a semana de Genebra: “Quando o João encarrila uma semana, nota-se que o nível é de top 50 e só com um quadro muito difícil ou com uma coisa estranha a acontecer é que não está competitivo, porque nestas situações dá-se um cocktail que para os outros é muito difícil de controlar — é um João positivo, que compete sem dúvidas, sem tanta matemática, que pensa para onde é que vai jogar e quando isto acontece ele torna-se num jogador muito inteligente e muito complexo. Quando compete bem, o João é um jogador de top 50 e todos os jogadores no balneário sabem disso.”

Por isso, é com ambição que encara a segunda metade do ano: “O João está muito bem na Race [a tabela que considera apenas os pontos conquistados na atual temporada] e o primeiro objetivo, que é sempre acabar o ano no top 100, começa a estar muito perto de garantido, se é que não está já, por isso o próximo objetivo é o top 50. Tem de ser assim, temos de apontar sempre lá para cima.”

Mas primeiro, o descanso com que começou a conversa — até porque o corpo do tenista português, que já tem 33 anos, assim o exige: “Esta dor no adutor [que obrigou João Sousa a chamar o fisioterapeuta durante o encontro da segunda ronda] tem aparecido desde 2018, quando fez uma série de torneios a um grande nível num curto espaço de tempo. Foi Indian Wells, Miami, Marraquexe, Barcelona e Estoril e nesse ano apareceu esta rutura que quando reaparece até é um sinal de que estamos a fazer as coisas bem. O desporto de alta competição é assim, o Nadal também não se vai ver livre do problema no pé.”

E depois a relva, este ano com uma abordagem diferente: “Vamos fazer a mesma preparação que fazemos todos os anos, que é treinar em Barcelona em relva sintética. É a superfície que mais se aproxima da relva natural e até é o extremo, porque é ainda mais rápida. Esta preparação tem dado resultado, porque o João tem jogado quase sempre bem em relva, e é o que vamos fazer. Normalmente esta preparação é feita para chegarmos bem às duas semanas de Wimbledon, mas este ano vai ser tudo diferente porque o torneio não terá pontos. É claro que também vamos tentar chegar bem a essas duas semanas porque Wimbledon é Wimbledon e financeiramente também é muito importante, mas o facto de não ter pontos muda a maneira de encarar os três torneios anteriores, que passam a ser os únicos em que o João pode pontuar.”

Quanto aos torneios, são os “habituais” do vimaranense: ‘s-Hertogenbosch (ATP 250 nos Países Baixos), Halle (ATP 500 na Alemanha) e Maiorca (ATP 250 em Espanha).


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